sexta-feira, 13 de agosto de 2010

A Separação entre Igrejas e Estado 1a. Parte


A Igreja e o Estado cumprem, na sociedade humana, missões diferentes, não necessariamente antagônicas ou hostis, antes complementares e interdependentes. A Igreja precisa do Estado para sua configuração jurídica que toma possível o ordenamento das suas relações sociais enquanto instituição na Terra e o Estado precisa da igreja para sustentação do Idealismo moral da sociedade, para a definição dos princípios éticos que o tomam variável e para o estabelecimento da paz espiritual dos cidadãos, sem a qual não haverá paz social.

Jesus definiu os limites da convivência entre a Igreja e o Estado quando mandou "dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus". A Igreja não pode substituir o poder temporal sem mundanizar o sagrado nem o Estado pode tomar o lugar de Deus sem corromper o espiritual. Não se deve dá à Igreja o que é de César, nem a César o que pertence ao sagrado. A César cabe receber os impostos que se alcance o bem comum. A Deus cabe, com exclusividade receber adoração. Os fariseus que interpelaram Jesus estavam dispostos a César o que de César, ainda que a contragosto, mas não estavam dispostos a dá a Deus o que é de Deus; o reconhecimento da sabedoria de Deus, revelado na aceitação do Filho de Deus como Messias e Salvador.

Na Idade Média Augustinho teorizou a existência de duas espadas: a Temporal representada pelo Estado Celestial representada pela Igreja No seu modo de ver o idealismo cristão seria alcançado na Terra quando o Estado tornar-se cristão, ou seja, quando a paz na Terra estivesse sujeita a paz celestial.

Tem sido uma característica marcante das igrejas batistas através da história, a defesa da liberdade do indivíduo. Liberdade de examinar as escrituras, liberdade de crer e adorar a Deus conforme os distames da sua consciência, liberdade universal de acesso a Deus sem intermediação humana. Como resultado desse principio basilar, os batistas defendem a separação entre Igreja e Estado. Reconhecem, como mandam as Escrituras, o papel do Estado. Colaboram com o Estado para melhorar a qualidade de vida da sociedade, oram pelos governantes, mas não abrem mão do principio de separação entre Igreja e Estado. Separação no caso, que não significa alienação, isolamento e menos ainda hostilidade, mas também não significa adulação, subserviência, ou dependência, quer no sentido ideológico, quer no sentido econômico.

Pode haver e tem havido cristãos verdadeiros que ocupam relevantes cargos no estado, até mesmo reis e Imperadores, mas isso não faz um estado cristão. Sempre que governantes cristãos tentaram impor a fé cristã pela força da espada a fé cedeu ao medo, a liberdade de consciência foi subjugada pela tirania. No ano 312 o imperador romano Constantino, tentou usar a Igreja politicamente. Parecia que Roma capitulava diante da fé Cristã. Posteriormente, Julianus tentou destruir a Igreja para implantar uma religião cultural baseada no helenismo (Grécia). No final do século IV o imperador Teodósio tentou estabelecer um sistema de governo submissão à Fé cristã subsidiando o clero e tratando como crime contra o estado o sacrilégio. Em 380 Teodósio adotou o poder temporal confundida com a do poder eclesiástico. A religião cristã, imposta como obrigação sem conversão real a Cristo, resultou nas heresias que foram migrando das religiões pagãs para a igreja de Cristo, transformadas no dogma da transubstanciação, o sacerdócio humano, as superstições pagãs transformadas em artigos de fé, como o poder mágico das palavras, do sacerdote no batismo para apagar pecados e assim por diante, até que Deus levantou os reformadores para restaurarem a fé cristã na pureza dos seus termos bíblicos. No entanto, as igrejas protestantes com seus reformadores queriam reformar até à forma da época de Agostinho que defendia a união da Igreja com o estado político; diferentemente dos batistas que queriam a pureza e a libertação da igreja do domínio político.

A Aliança Batista Mundial em sua assembléia de 1960 no Rio de Janeiro publicou a seguinte declaração: "Recomendamos que os programas de obras sociais das Igrejas sejam planejados de forma que representem o amor e mordomia dos povos das Igrejas e que não sejam custeados pelo governo".

O Dr. Reinaldo Purim declara: "Em geral o que se entende pela separação entre Igreja e Estado, é que uma instituição não devem interferir nas funções da outra. O alvo tem sido 'UMA IGREJA LIVRE NUM ESTADO LIVRE ' ... 0 Estado só tem qualidade para cumprir a sua própria finalidade. e não a de outras instituições ou pessoas ... a função social da Igreja é espiritual e não administrativa... Em ultima analise esta separação, depende do indivíduo com personalidade ... distinguir entre as funções da Igreja. do Estado e as suas próprias "

A exemplo disso no Brasil império e mas ressente temos Portugal Salazariano e Espanha Franquista Lutero se libertou da Igreja Católica, mas muito ranço romanista nele ainda ficou, e um deles foi conúbio com o Estado, manifesto no seu famoso "cujos est régio, hujos est religio" Zwinglio (reformador suíço) descansou no braço do poder civil; João Knox, com a Bíblia na mão usufruiu dinheiro do Estado; Calvino usou o Governo civil para impor seus princípios religiosos.

A Confissão de fé Batista Inglesa de 1611 sustenta com firmeza e coragem: "Cremos que o Magistrado não pode imiscui-se em assuntos de consciência ou obrigar o homem a adotar uma forma de religião". Os batistas sempre combateram o casamento da Igreja com o Estado.

O artigo 48 da Confissão Batista de 1644 diz: ''E uma vez que não podemos de encontro a nossa compreensão e consciência, assim não podemos deixar de fazer aquilo que a nossa compreensão e nossa consciência nos obriguem, devemos entregar os nossos corpos de maneira passiva ao seu poder como fizeram os santos da antigüidade "

Frederico Vitols cita J. M. Carroll que declara: "O estado do Texas ofereceu certa importância a universidade de Baylor. Os Batista, embora necessitados, declinaram da oferta. Uma outra escola¬ Metodista aceita o oferecimento. Mas tarde, a Escola Metodista tornou-se propriedade do governo e a Universidade de Baylor é hoje a maior universidade cios Batista Americanos”.

Os Batistas sustentam este principio de separação desde muitos séculos, o que lhes tem custado muitas renuncias e até sangue. Não tem sido fácil impor ao mundo esta idéia, ela tem custado muito sacrifício e muita dedicação; tem exigido muita luta com o de fora e, o que é mais triste, com os de dentro.

Pr Calisthenes Lins - 2004

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