terça-feira, 28 de dezembro de 2010

A Confissão de New Hampshire Não é Hipercalvinista

Vemos irmãos que a famosa Confissão Batista de New Hampshire não é Calvinista, mas coloca a verdadeira posição batista (anabatista) que não entra no "perverso" arminianismo, nem no hipercalvinismo, nem no pelagianismo. Nós batistas originais não somos calvinistas, nem armenianos e nem tampouco pelagianos. Cremos na eleição, na segurança eterna dos salvos, mas na dependência total dos homens da graça de Deus para os salvar. O ítem abaixo da famosa e referida confissão batista mostra isso:





9. Cremos que a eleição é eterno propósito de Deus, segundo o qual Ele graciosamente regenera, santifica e salva pecadores; que sendo perfeitamente consistente com a livre agência do homem, abrange todos os meios em conexão com o fim; que é uma demonstração gloriosíssima da bondade soberana de Deus, sendo infinitamente livre, sábia, santa, e imutável; que ela exclui completamente a vanglória, e promove humildade, amor, oração, louvor, confiança em Deus, e ativa imitação de sua livre misericórdia; que ela encoraja o uso dos meios no mais alto grau; que ela pode ser percebida pelos seus efeitos em todo aquele que verdadeiramente crê no evangelho; que é o alicerce da segurança cristã; e que verificá-la com respeito a nós mesmos demanda e merece a máxima diligência.

fonte: http://anabatistas.ning.com/profiles/blogs/a-confissao-batista-de-new

A Doutrina da Eleição

Jorge Pinheiro

Calvinismo, arminianismo e o equilíbrio da doutrina batista

Em primeiro lugar devemos ver a relação entre teologia e doutrina. A teologia é uma construção racional, lógica, que parte de dois princípios: o princípio arquitetônico, que é a revelação, a palavra de Deus; e o princípio hermenêutico, instrumental, que fornece equipamento técnico para a análise do texto escriturístico.
A teologia serve assim, a partir desses dois princípios, um divino e outro humano, para contextualizar a palavra de Deus e responder aos desafios do tempo presente, armando e fortalecendo a igreja. Apesar desse importante serviço, a teologia é sempre passageira e precária. Não é revelação.
Já a doutrina é fundamento bíblico que norteia nossa fé e ordem. Não tem base nos arrazoados de grandes teólogos, mas na revelação. Nesse sentido, teologia e doutrina são diferentes. E nós devemos entender isso.
Em segundo lugar, devemos saber que quando o infinito cruza com o finito surgem questões impossíveis de serem respondidas a contento a partir de nossa perspectiva finita. Entre esses podemos citar a encarnação, a kenosis e a ressurreição de Cristo. Outra questão difícil, por implicar nesse cruzamento da infinitude da soberania de Deus e a liberdade de escolha da imago Dei, é a teologia da eleição.
Nesse sentido, há teologias, como a calvinista, que olham esta questão difícil da eleição a partir do infinito, de cima, exclusivamente. E há outras teologias, como a arminiana, que olham esta questão difícil da eleição a partir do finito, de baixo.
Mas há outra maneira de olhar a questão da eleição, a partir da humildade do reconhecimento que estamos diante de um cruzamento do divino com o humano, do infinito com o finito, daquilo que está em cima com aquilo que está em baixo. E é exatamente esta perspectiva, humilde, bíblica e, por isso, doutrinária que orienta o pensamento batista nesta difícil questão.

A teologia da eleição segundo Lutero
Para entendermos a teologia da eleição no calvinismo e no arminianismo temos que começar a partir da visão de Lutero. A compreensão de Lutero tem por base a sua leitura da Carta de Paulo aos Romanos, e a partir daí de sua teologia da cruz. Segundo Walther von Loewenich, um especialista na vida e obra de do reformador alemão, “a teologia da cruz é o princípio de toda a teologia de Lutero. Ela não pode ser limitada a um período particular de sua teologia”. Nessa teologia, Deus vem até aqui embaixo e a expiação acontece quando Deus chega até o ser humano, que vive sob a ira da lei. Deus é satisfeito, aplacado, quando o movimento divino em direção ao humano resulta em fé. Ocorre, então, uma “alegre troca”: Jesus toma a natureza pecaminosa e entrega ao ser humano sua vida justa e imortal. E nessa teologia da cruz de Lutero está embutida a primeira compreensão que a Reforma fez da eleição de Deus.
Para Lutero, conforme expôs no Prefácio a Carta de Paulo aos Romanos, “você deve seguir o raciocínio desta carta na ordem em que é apresentada. Fixe sua atenção, primeiro que tudo no Evangelho de Cristo, de maneira que você possa reconhecer seu pecado e a Sua graça. Então lute contra o pecado, conforme os capítulos de um a oito tem lhe ensinado a fazer. Finalmente, quando você chegar ao capítulo 8, debaixo da sombra da cruz e do sofrimento, passe para os capítulos de 9 a 11 que lhe ensinarão sobre a providência e o conforto que ela é”.
Assim, para Lutero, a eleição era uma garantia, era esperança. Pois, nos momentos de sofrimento, de cruz e das angústias da morte, é a providência divina, através da eleição, que nos dá garantia da presença da graça em nossas vidas. É por isso que ele disse: “Há uma medida adequada, hora e idade para o entendimento de toda doutrina”.
Dessa maneira, para o reformador, o caminho cristão começa com o ato de ouvir o Evangelho, com o reconhecimento de nosso pecado, mas também da graça de Deus, em Cristo, derramado sobre nós. Continua no correr de nossa vida com a luta contra o pecado e, finalmente, quando debaixo da sombra da cruz e do sofrimento, é a providência de Deus, manifesta na eternidade, através da eleição, que garante a esperança e nos dá conforto.

A teologia da eleição segundo Calvino
Calvino partiu dos mesmos textos de Lutero, principalmente da Carta de Paulo aos Romanos, mas inverteu a maneira de ver de Lutero. Se para Lutero, o ser humano não tem como discutir e mergulhar na compreensão da soberania de Deus e teologizar sobre ela e, por isso, a eleição deve ser vista como garantia de nossa esperança, principalmente nos momentos de dificuldades e sofrimentos, para Calvino a base da vida cristã é a escolha eterna de Deus. Assim, na teologia, não seria fim, mas começo e centralidade.
Tanto em seu Comentário sobre a Carta aos Romanos, como nas Instituições da Igreja Cristã, Calvino constrói uma teologia da eleição que tem por base a soberania de Deus. E olha a eleição sempre do “ponto de vista” de Deus, de cima, descartando uma leitura a partir da imago Dei e a possibilidade de escolha humana.
Segundo o teólogo batista Timothy George, a doutrina da predestinação em Calvino pode ser definida em três palavras: absoluta, particular e dupla. É absoluta já que não está condicionada a nenhuma contingência finita, é particular no sentido que pertence a indivíduos e não a grupos. E, por fim, é dupla: Deus, para o louvor de sua misericórdia, elegeu uns para a vida eterna, e, para o louvor de sua justiça, outros para a perdição eterna.
A posição de Calvino, quando relaciona eleição e salvação, pode ser traduzida no seguinte silogismo: (1) A certeza da salvação depende do decreto eterno de Deus; (2) aqueles que crêem foram escolhidos por Deus desde a eternidade; (3) se eu creio, logo serei salvo, porque fui escolhido.
A historiografia dos séculos 16 e 17 mostra que a doutrina da predestinação absoluta defendida por Calvino enfrentou séria oposição não somente nos meios teológicos, mas de pastores e crentes. Entre esses opositores podemos citar Erasmus, o movimento anabatista e dois fundadores do pensamento batista na Inglaterra: John Smyth e Guilherme Dell. Mas, historicamente, seu opositor mais conhecido foi Jacobus Arminius.
Apesar da oposição que a leitura de Calvino produziu no mundo protestante, sua leitura da eleição, para seus defensores, deve ser entendida como uma garantia nos momentos de provação e uma confissão à graça de Deus.

A teologia da eleição segundo Arminius
Já a doutrina da predestinação defendida por Jacobus Arminius (1560-1609)parte de uma perspectiva diferente: o papel da graça diante da depravação humana, a eleição condicional, a graça resistível, a expiação não limitada -- Cristo morreu por todos -- e a possibilidade de perda da salvação. Assim, para o arminianismo a eleição é condicionada pela fé.
Em sua Declaração de Sentimentos, apresentada à igreja holandesa em 30 de outubro de 1605, ele sintetizou a sua posição em cinco pontos:

1 - Capacidade humana e liberdade de escolha. Todos os homens embora sejam pecadores, ainda são livres para aceitar ou recusar a salvação que Deus oferece;
2 - Eleição condicional. Deus elegeu os homens que ele previu que teriam fé em Cristo;
3 - Expiação ilimitada. Cristo morreu por todos os seres humanos, em todas as épocas e lugares;
4 - Graça resistível. Os homens podem resistir à Graça de Deus para não serem salvos;
5 - Decair da Graça. Homens salvos podem perder a salvação caso não perseverem na fé até o fim.

Arminius defendeu uma posição sublapsariana, alertando para o fato de que Deus não predetermina ninguém para a perdição. Para ele, Deus em seu decreto escolheu seu Filho como Salvador para mediar a favor daqueles pecadores que se arrependem e crêem em Cristo, e para administrar os meios eficientes e eficazes para a fé de cada um deles. Assim, para ele, Deus decreta a salvação e a perdição de pessoas em particular com base na onisciência divina da fé e perseverança de cada indivíduo.
Na verdade, a tensão da discussão entre predestinação absoluta ou predestinação condicional gira ao redor da compreensão de duas doutrinas: graça e eleição. Tomamos por base, a partir de Arminius, o arrazoado que o apóstolo Pedro faz em sua segunda epístola, explicando esta questão. Ele nos mostra que a expiação não tem limites:
“Não retarda o Senhor a sua promessa, como alguns a julgam demorada, pelo contrário, ele é longânime para convosco, não querendo que nenhum pereça, senão que todos cheguem ao arrependimento”. 2Pedro 3.19 e também 1João 2.2 e 2Coríntios 5.19.
A graça e a expiação têm eficiência e eficácia ilimitadas, mas há uma chave para que a função graça e função expiação sejam plenamente exercidas. E essa chave está no final do versículo acima citado: “que todos cheguem ao arrependimento”.
O sacrifício pleno, eficiente e eficaz de Cristo (graça não limitada) deve ser somado ao arrependimento, produzindo então a salvação. Ou seja: expiação não limitada mais arrependimento = salvação.
O sacrifício pleno, eficiente e eficaz de Cristo (graça não limitada) sem o arrependimento produz justiça. Ou seja: expiação não limitada menos arrependimento = justiça.
A verdade, para Arminius, é que o valor da cruz não é limitado, mas sua aplicação sim. Para ele, todos estão predestinados à salvação, mas a eleição depende do arrependimento. Por isso, para Arminius, que Deus decreta a salvação e a condenação de pessoas em particular com base no conhecimento divino da fé e perseverança de cada um em particular.
A partir desse pastor holandês, podemos dar uma explicação lógica e plausível para o texto de 2Pedro 2.1: “Assim como no meio do povo surgiram falsos profetas, assim também haverá entre vós falsos mestres, os quais introduzirão dissimuladamente heresias destruidoras, até a ponto de renegarem o Soberano Senhor que os resgatou, trazendo sobre si mesmos repentina destruição”.
A teologia de Jacobus Arminius ressalta a liberdade humana. Acreditava no pecado original, considerava que a vontade do homem natural caído está degenerada, incapacitada para produzir qualquer bem espiritual. Nesse sentido seu conceito de liberdade humana diferia da visão de Pelágio.
Jacobus Arminius influenciou profundamente a teologia de John Wesley, o metodismo e o protestantismo de missões. É interessante notar, também, que o pensamento de Arminius antecede os padrões de pensamento do Iluminismo.
Em resposta às críticas do arminianismo, a Igreja Reformada da Holanda se reuniu em concílio, e assim os presbiterianos produziram um documento que ficou conhecido como:

Os cinco pontos do Calvinismo
O termo Calvinismo é dado ao sistema teológico exposto e defendido por João Calvino (1509-1564). Seu sistema de interpretação bíblica, no entanto, sofreu uma releitura ao ser resumido em cinco pontos, conhecidos como "os cinco pontos do Calvinismo" ou TULIP, em inglês.
De 13 de novembro de 1618 a 9 de maio de 1619 reuniu-se na cidade de Dort, na Holanda, um concílio presbiteriano para discutir a controvérsia entre arminianos e calvinistas. Arminius (1560-1609) já tinha morrido e, logicamente, Calvino também (1509-1564). O concílio analisou cinco questões: predestinação, expiação, fé, graça e perseverança dos santos. Ao final do Concílio de Dort, os presbiterianos aprovaram os “cinco pontos do calvinismo”.
Eis a TULIP:

1 - Total Depravity (Depravação total). Todos os seres humanos nascem totalmente depravados, incapazes de se salvar ou de escolher o bem em questões espirituais;
2 - Unconditional Election (Eleição incondicional). Deus escolheu dentre todos os seres humanos decaídos um grande número de pecadores por graça pura, sem levar em conta qualquer mérito, obra ou fé prevista neles;
3 - Limited Atonement (Expiação limitada). Jesus Cristo morreu na cruz para pagar o preço do resgate somente dos eleitos;
4 - Irresistible Grace - (Graça Irresistível). A Graça de Deus é irresistível para os eleitos, isto é, o Espírito Santo acaba convencendo e infundindo a fé salvadora neles;
5 - Perseverance of Saints (Perseverança dos Santos). Todos os eleitos vão perseverar na fé até o fim e chegar ao céu. Nenhum perderá a salvação.

Essa leitura do calvinismo é chamada por alguns teólogos batistas de hipercalvinismo, e se caracteriza pela negação da idéia de que a chamada do Evangelho se destina àqueles que não são eleitos. É a negação da idéia de que a fé é o dever de cada um que ouve o Evangelho. Ou seja, é a crença de que Deus planejou o mundo de tal forma que causas secundárias, ou seja, nossas ações, não são necessárias de modo algum, pois, se Deus já escolheu quem vai ser salvo, não é necessário pregar o Evangelho. Esta visão não reflete o calvinismo histórico.

O equilíbrio da doutrina batista
Podemos dizer que existem três tendências no pensamento teológico em relação à doutrina da eleição, em especial à tensão existente entre a soberania de Deus e a liberdade de consciência e ação e ao uso pleno da razão por parte do ser humano:
A tendência chamada minimalista, que olha a questão de cima, a partir da soberania de Deus, e nega toda a possibilidade da liberdade humana, de consciência livre e escolha. A tendência chamada maximalista, que olha a questão de baixo, a partir de nossa humanidade, e não vê limitação à possibilidade do ser humano responder de forma livre ao chamado de seu Criador.
Mas há uma superação dialética dessa contradição, que defende que o ser humano pode e deve apoiar sua resposta à eleição e ao chamado de Deus em sua liberdade de ação e consciência, assim como no uso da razão, embora tal processo deva ter como ponto de partida a revelação. Vamos analisar, então, o pensamento doutrinário batista:
“Eleição é a escolha feita por Deus, em Cristo, desde a eternidade, de pessoas para a vida eterna, não por qualquer mérito, mas segundo a riqueza da sua graça. Antes da criação do mundo, Deus, no exercício de sua soberania divina e à luz de sua presciência de todas as coisas, elegeu, chamou, predestinou, justificou e glorificou aqueles que, no correr dos tempos, aceitariam livremente o dom da salvação. Ainda que baseada na soberania de Deus, essa eleição está em perfeita consonância com o livre-arbítrio de cada um e de todos os seres humanos. A salvação do crente é eterna. Os salvos perseveram em Cristo e estão guardados pelo poder de Deus. Nenhuma força ou circunstância tem poder para separar o crente do amor de Deus em Cristo Jesus. O novo nascimento, o perdão, a justificação, a adoção como filhos de Deus, a eleição e o dom do Espírito Santo asseguram aos salvos a permanência na graça da salvação”.
Reconhecemos que existe uma tensão entre infinito e finito, entre o que está em cima e o que está embaixo. Mas, para nós batistas, a doutrina da eleição é uma síntese, que equilibra a tensão. Dessa maneira, segundo Sua graça imerecida, Deus opera a salvação em e através de Cristo, de pessoas eleitas desde a eternidade, chamadas, predestinadas, justificadas e glorificadas à luz de Sua presciência e de acordo com o livre arbítrio de cada um e de todos. [Veja os seguintes textos: 1Pedro 1.2; Romanos 9.22-24; 1Tessalonicenses 1.4; Romanos 8.28-30; Efésios 1.3-14].
E assim a doutrina batista apresenta seus quatro pontos:

1. Todos são eleitos.
2. Deus opera a salvação em e através de Cristo pelo favor imerecido de sua graça.
3. Deus é pré-ciente.
4. De acordo com o livre-arbítrio, desde a eternidade, Deus elege, chama, predestina, justifica e glorifica.

Nós batistas entendemos que salvação implica em regeneração, que é ato inicial em que Deus faz nascer de novo o pecador perdido. É obra do Espírito Santo, quando o pecador recebe o perdão, a justificação, a adoção de filho de Deus, a vida eterna e o dom do Espírito Santo. Neste ato de regeneração, o novo crente é batizado com o Espírito Santo e é por ele selado para o dia da redenção final, liberto do castigo eterno de seus pecados.
Há duas condições para o pecador ser regenerado: arrependimento e fé. O arrependimento implica em mudança radical do homem interior, que significa afastar-se do pecado e voltar-se para Deus. A fé é a confiança e aceitação de Jesus Cristo como Salvador e a total entrega da personalidade do pecador a Ele. Nessa experiência de conversão o ser humano perdido é reconciliado com Deus, que lhe concede perdão, justiça e paz.
Assim, a partir da consistência ontológica do humano, somos levados à necessidade de uma análise antropológica para a teologia. Quando descartamos a reflexão sobre o ser humano a quem Deus fala, temos um discurso meramente ideológico, distanciado do homem e da mulher verdadeiros e da realidade em que vivem e transformam. Temos, então, um ser humano-mito, onde os fatos natural e histórico transformam-se em alegoria.
O pressuposto fundamental dessa reflexão antropológica para a teologia é a imago Dei, que traduz a verdade de que a compreensão de Deus, através de seu Cristo, leva à compreensão do ser humano e de sua razão de existir. Não se trata de conhecer o ser humano para conhecer a Deus, porque o homem não é Deus, mas o contrário. Nesse sentido, a antropologia correta parte da revelação. Não utilizamos o conceito do teólogo Tomás de Aquino de analogia em seus dois sentidos, como se fosse possível ao homem conhecer a Deus a partir de si próprio, mas acreditamos que as necessidades e anseios do espírito humano apontam para aquilo que ele perdeu.
Se a revelação é uma conversa entre Deus e o ser humano, em Cristo, é a partir desse diálogo que temos os elementos fundamentais para conhecer aquilo que Deus deseja que sejamos. Nesse sentido, por mais decaído que esteja o ser humano, ainda lhe resta a liberdade de consciência necessária para aceitar ou não esse diálogo proposto pelo Criador.
Por isso, nós batistas consideramos que a missão do povo de Deus é a evangelização do mundo, visando a reconciliação do ser humano com Deus. É dever de todo discípulo de Jesus Cristo e das igrejas proclamarem, pelo exemplo e pelas palavras, a realidade do evangelho, fazendo novos discípulos de Jesus Cristo em todas as nações. Cabe às igrejas batizá-los, ensinando-os a observar o que Jesus ordenou. A responsabilidade da evangelização estende-se até os confins da terra e, por isso, as igrejas devem promover a obra de missões, pedindo a Deus que envie obreiros para a sua seara.

Notas
1. Walther von Loewenich, A Teologia da Cruz de Lutero, São Leopoldo, Sinodal, 1988, pp. 11 e 12.
2. Timothy George, Teologia dos Reformadores, São Paulo, Edições Vida Nova, 1994, p.232.
3. Desidério Erasmus (1486-1536) teólogo e erudito, em 1524 escreveu, em polêmica com Lutero, Diatribe sobre o Livre Arbítrio. Carl Bangs, Arminius, A Study in the Dutch Reformation, NY, Abingdon Press, 1971, pp. 90 e 102.
4. John Smyth (1610-1612), primeiro pastor batista na Inglaterra, levantou a bandeira da “liberdade de consciência absoluta” in Zaqueu Moreira de Oliveira, Liberdade e Exclusivismo: Ensaios sobre os Batistas Ingleses. Rio de Janeiro: Horizonal; Recife: STBNB Edições, 1997, p. 83.
5. Pensador batista inglês, “Dell usou cada oportunidade que teve para defender a liberdade de consciência. Ele considerou o uso de coação uma invenção humana, algo deletério que não tinha lugar no reino de Cristo”. Zaqueu Moreira de Oliveira, op. cit., p. 104-106. Dell escreveu Uniformidade Examinada e apoiou a revolução inglesa (1642-1649), dirigida por Oliver Cromwell.
6. Obras de Jacobus Arminius: Exame do Panfleto de Perkins, Declaração de Sentimentos, Controvérsias Públicas, Setenta e Nove Controvérsias Particulares in Carl Bangs, Arminius, A Study in the Dutch Reformation, NY, Abingdon Press, 1971, pp.206-221; 307-316; e Arminianismo e Jacobus Arminius, in Enciclopédia Histórico-Teológica, São Paulo, Edições Vida Nova, 1993, pp. 112-114.
7. Júlio Andrade Ferreira (org.), Antologia Teológica, São Paulo, Novo Século, 2003, p. 698.
8. Declaração Doutrinária da Convenção Batista Brasileira, “Eleição”, in Rumo e Prumo, terceira edição, Ordem dos Pastores Batistas do Brasil, secção do Estado de São Paulo, dezembro de 2004, p. 26.
9. “Salvação”, in Rumo e Prumo, terceira edição, Ordem dos Pastores Batistas do Brasil, secção do Estado de São Paulo, dezembro de 2004, p. 25.
10. “Evangelização e Missões”, in Rumo e Prumo, op. cit., p. 28.

Fonte: Blog do Jorge Pinheiro
http://jorgepinheirosanctus.blogspot.com/

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

A Confissão Batista de New Hampshire Não é Pré-Milenista


Vejamos irmãos que a famosa Confissão Batista de New Hampshire de 1853, usada por batistas nacionais, brasileiros, regulares, fundamentalistas, em seu ítem que decorre sobre o mundo vindouro não é pré-milenista; a sua tendência é amilenista. Comprovem pelas fontes citadas por asteristicos(*), (**):





XVIII - Do Mundo Vindouro(*)
Cremos que o fim do mundo está se aproximando; que no último dia Cristo descerá do céu, e ressuscitará os mortos da sepultura para retribuição final; que uma solene separação então tomará lugar; que o ímpio será condenado à punição, e o justo ao júbilo infindáveis; e que este julgamento fixará para sempre o estado final dos homens no céu ou no inferno, sobre os princípios da justiça.




Vejam que a que o site da IB Bereana expõe enriquecida das referência biblicas também não é(**):




"XX. O MUNDO VINDOURO

Cremos que o fim do mundo está aproximando 1; que no Último Dia, Cristo descerá dos céus 2, e ressuscitará os mortos dos túmulos para a retribuição final 3; e que uma separação solene acontecerá 4; que os ímpios serão julgados à punição eterna, e os justos à glória eterna 5; e que este julgamento será permanente no inferno ou no céu baseado nos princípios de justiça 6. Referências: - 1. I Pedro 4.7, “E já está próximo o fim de todas as coisas; portanto sede sóbrios e vigiai em oração”; I Coríntios 7.29-31; Hebreus 1.10-12; Mateus 24.35; I João 2.17; Mateus 28.20; 13.39, 40; II Pedro 3.3-13; - 2. Atos 1.11, “Os quais lhes disseram. Homens galileus, por que estais olhando para o céu? Esse Jesus, que dentre vós foi recebido em cima no céu, há de vir assim como para o céu o vistes ir.”; Apocalipse 1.7; Hebreus 9.28; Atos 3.21; I Tessalonicenses 4.13-18; 5.1-11; - 3. Atos 24.15, “Tendo esperança em Deus, como estes mesmos também esperam, de que há de haver ressurreição de mortos, assim dos justos como dos injustos.”; I Coríntios 15.12-58; Lucas 14.14; Daniel 12.2; João 5.28, 29; 6.40; 11.25, 26; II Timóteo 1.10; Atos 10.42; - 4. Mateus 13.49, “Assim será na consumação dos séculos. virão os anjos, e separarão os maus de entre os justos,”; Mateus 13.37-46; 25.31-33; - 5. Mateus 25.35-41, “Porque tive fome, e destes-me de comer; tive sede, e destes-me de beber; era estrangeiro, e hospedastes-me; 36 Estava nu, e vestistes-me; adoeci, e visitastes-me; estive na prisão, e fostes ver-me. 37 Então os justos lhe responderão, dizendo. Senhor, quando te vimos com fome, e te demos de comer? ou com sede, e te demos de beber? 38 E quando te vimos estrangeiro, e te hospedamos? ou nu, e te vestimos? 39 E quando te vimos enfermo, ou na prisão, e fomos ver-te? 40 E, respondendo o Rei, lhes dirá. Em verdade vos digo que quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes. 41 Então dirá também aos que estiverem à sua esquerda. Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos”; Apocalipse 22.11; I Coríntios 6.9, 10; Marcos 9.43-48; II Pedro 2.9; Judas 1.7; Filipenses 3.19; Romanos 6.22; II Coríntios 5.10, 11; João 4.36; II Coríntios 4.18; - 6. Romanos 3.5, 6, “E, se a nossa injustiça for causa da justiça de Deus, que diremos? Porventura será Deus injusto, trazendo ira sobre nós? (Falo como homem.) 6 De maneira nenhuma; de outro modo, como julgará Deus o mundo?”; II Tessalonicenses 1.6-12; Hebreus 6.1-2; I Cor. 4.5; Atos 17.31; Romanos 2.2-16; Apocalipse 20.11, 12; I João 2.28; 4.17; II Pedro 3.11, 12.



(*)http://www.luz.eti.br/do_declaracaobatista1833.html



(**)http://ibb.nbrasil.net/index.php?option=com_content&view=articl... Mundo Vindouro

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

A Confissão Schleitheim


Prólogo

Silenciosamente, cada vez mais marcam presença em várias partes do mundo em nossos dias. Não precisam de presidentes, prefeitos, governadores, Ministério de Planejamento, departamentos de propaganda, chamadas na tv e no rádio, institutos de previdência social, economistas, bombeiros, oficiais de justiça, nem sobem em palanques para convencer ninguém de nada. Não necessitam de guerrilheiros nem de homens bomba. Não promovem nem participam das necessidades executivas e legislativas da política e lá nem existe política, nem registram contratos em cartórios, e lá nem existem cartórios.

Mesmo seguindo a risca os ensinamentos de Cristo, foram severamente perseguidos pelo clero, tanto católico, como protestante. Mesmo exercendo a democracia absoluta, real e direta, foram duramente perseguidos pelos governantes europeus e dos Estados Unidos da América. Embora comunistas exemplares foram perseguidos pelos governantes da extinta União Russa Socialista Soviética. Embora anarquistas práticos nunca precisaram ler Proudhon. Eles nunca precisaram ler teorias revolucionárias de Marx ou Bakunin, porque a teoria deles se aperfeiçoa e se desenvolve na prática do dia-a-dia. O único poder terrestre ao qual se submetem é o poder da palavra que sempre é cumprida.

Labutam como jardineiros no Éden, e muitas de suas comunidades são ricas, pelo próprio suor, pois não admitem explorados nem exploradores. Não precisam de tribunais, funcionários públicos, nem soldados, nem delegados de polícia, nem postos de saúde, ou hospitais, médicos, engenheiros, advogados, enfermeiras e empregados subalternos. Lá não há classes sociais, nem classe política, nem classe alguma.

Eles mesmos educam suas crianças em suas próprias escolas, mantidas e dirigidas por eles mesmos. Cada homem vale um homem e cada mulher vale uma mulher. Eles tem um fundo comum mas esse dinheiro não circula escondido em cuecas e meias de parlamentares e empresários, está sempre acessível às necessidades reais da comunidade como um todo e de cada um individualmente, e nem mesmo um centavo é desviado. Nessas comunidades não há prisões, entre as casas não há cercas. A luz enganosa do espetáculo não brilha ali, em seu lugar à noite desfila a lua e as estrelas e durante o dia reina o sol soberano. No "ruspringa" os jovens são incentivados a sair e visitar o "parque de diversões do diabo", nome que deram ao mundo onde nós vivemos, são raríssimos os que não retornam. Lá não há necessitados nem viciados em crack perambulando como cães pelas ruas. Ninguém depende de migalhas lançadas de cima pelos serviços sociais do governo. Não entregam seus filhos para a guerra, nem pagam impostos de espécie alguma.

Mas esse salutar estilo de vida custou um alto preço, muitos foram presos e mortos queimados em fogueiras, afogados, ou trespassados por tridentes e pela espada, mas o movimento continuou e está mais vivo do que nunca.

Escrita há exatos 482 anos, a Confissão Schleitheim, o documento singelo que teve o poder de agregar pessoas para o projeto acima, é mais do que o documento mais importante dos remanescentes anabatistas, é também, pelo que representa, um monumento à verdadeira cristandade, uma luz de esperança para o presente e para o porvir. Vale para todas as raças, todas as culturas, todos os povos. Um oásis de paz e simplicidade em meio a uma terra atribulada pela mentira, seca de amor e encharcada de ambição e ódio.

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A Irmandade de Schleitheim

(Brüderlich Vereinigung etzlicher Kinder Gottes seiben Artikel betreffend . . . )

"The Legacy of Michael Sattler" por John Howard Yoder, Herald Press, 1973. Fonte digital em inglês: http://tiny.cc/vykky

Traduzido por Railton Sousa Guedes



Introdução

Que a alegria, a paz, a misericórdia de nosso Pai - por meio da Expiação [31] do sangue de Jesus Cristo, juntamente com os dons do Espírito que são enviados pelo Pai a todos os crentes para força, consolação e constância em toda a tribulação até o fim, amém - estejam com todos os que amam a Deus e com todos os filhos da luz, que estão espalhados por toda parte, onde quer que eles possam ter sido colocados [32] por parte de Deus nosso Pai, onde quer que se reúnam em unidade de espírito no Deus e Pai de todos nós. Que a graça e a paz do coração estejam com todos vós. Amém.

Amados irmãos e irmãs no Senhor, em primeiro lugar estamos sempre preocupados com o seu consolo e com os protestos da sua consciência (que esteve em algum momento confusa), para não estarem sempre separados de nós como estrangeiros e por direito quase completamente excluídos, [33], mas que vocês possam tornar-se verdadeiros membros implantados de Cristo, armados com paciência e conhecimento de si e, assim, reunirem-se novamente conosco no poder de um espírito cristão devoto e zeloso para com Deus.

É patente a multiplicidade de astúcias que o diabo vem usando para nos desviar, para poder destruir e subjugar o trabalho de Deus que em nós misericordiosa e graciosamente começou parcialmente. Mas o verdadeiro Pastor das nossas almas, Cristo, que começou essa obra em nós, vai nos dirigir e ensinar [34] o mesmo até o fim, para a Sua glória e nossa salvação, amém.

Queridos irmãos e irmãs, reunidos no Senhor em Schleitheim nas [colinas] de Randen [35] façamos saber, em pontos e artigos, a todos os que amam a Deus, que estamos unidos [36] e permanecemos firmes no Senhor, como filhos obedientes de Deus, filhos e filhas, que estão e permanecerão separados do mundo em tudo o que fazemos e deixamos de fazer, e (louvor e glória a Deus somente) sem contradição por todos os irmãos, completamente em paz.[37] Nistas coisas percebemos a unidade do Pai e do nosso Cristo, presente entre nós em seu espírito. Porque o Senhor é Deus de paz e não de brigas, como Paulo indica. [38] Para que vocês compreendam em que pontos isto ocorre, vocês devem observar o seguinte:

Uma enorme ofensa foi introduzida por alguns falsos irmãos entre nós, [39] fazendo com que vários desviassem da fé, julgando praticar e respeitar a liberdade do Espírito e de Cristo. Mas por ficaram aquém da verdade e (para sua própria condenação) [40] se entregaram à lascívia e à licença da carne. Eles acham que a fé e o amor pode fazer e permitir tudo e que nada pode prejudicar nem condená-los, pois eles são "crentes".

Notem bem, vocês membros [41] de Deus em Cristo Jesus, que a fé no Pai celestial através de Jesus Cristo não se forma assim: ela nâo produz e nem traz essas coisas que esses falsos irmãos e irmãs praticam e ensinam. Estejam atentos e precavidos com tais pessoas, pois elas não servem nosso Pai, mas o pai deles, o diabo.

Mas vocês não são assim, porque os que são de Cristo Jesus crucificaram a carne com todos os seus desejos e anseios [42]. Vocês me entendem [43] bem, e sabem o que queremos dizer. Apartai-vos deles porque são pervertidos. Orem ao Senhor para que eles possam ter conhecimento para o arrependimento, e por nós para que possamos permanecer e perseverar no caminho que trilhamos, para a glória de Deus e de Cristo, Seu Filho. Amém. [44]


A Confissão Schleitheim(*)

Aprovada pela Conferência dos Irmãos Suíços em 24 de fevereiro de 1527.
Sete Artigos Deliberados pela União Fraternal de Vários Filhos de Deus.

Os artigos que discutimos e que por unanimidade concordamos são estes:




1. Batismo;
2. O Banimento;
3. Partir do pão;
4. Separação da Abominação;
5. Pastores da Igreja;
6. A Espada;
7. O Juramento.

Artigo I. Observações sobre o batismo

O batismo deve ser dado a todos aqueles que se arrependem e mudam de vida, e que verdadeiramente acreditam que seus pecados são levados por Cristo, e a todos aqueles que andam na ressurreição de Jesus Cristo, e que desejam ser sepultados com Ele na morte, para que possam ser ressuscitados com Ele, e para todos aqueles que, com esta compreensão, o pedem a nós e o procuram para si. Isso exclui todo batismo infantil, a maior e principal abominação do Papa. Nele temos as razões e o testemunho dos apóstolos.[46] Queremos mantê-lo com simplicidade, mas com firmeza e segurança.

Artigo II. Sobre o banimento deliberamos o seguinte:

O banimento deve ser empregado a todo aquele que, apesar de se entregar ao Senhor, seguir [Cristo] [47] nos seus mandamentos; ser batizado no corpo de Cristo e ser chamado de irmão ou irmã, escorregou e caiu no erro e no pecado, mesmo inadvertidamente.[48] O mesmo deve por duas vezes ser admoestado em segredo e na terceira vez abertamente disciplinado ou banido diante de toda congregação [49] de acordo com o mandamento de Cristo (Mateus 18).[50] Mas isso deve ser feito de acordo com a regulação do Espírito antes de partir do pão,[51] para que possamos todos em um espírito e em um amor, partir e comer de um pão e beber de um copo.

Artigo III. Sobre o partir do pão

Concernente ao partir do pão, nos tornamos um e concordamos [52] que: Todo aquele que deseja partir o pão em memória do corpo partido de Cristo e deseja beber como lembrança do sangue derramado de Cristo, deve ser previamente unido [53] no corpo de Cristo que é a igreja de Deus e cuja cabeça é Cristo. Porque não podemos, como Paulo assinala, [54] ao mesmo tempo beber o cálice do Senhor e o cálice do diabo. Ou seja, todos aqueles que têm comunhão com as obras mortas das trevas não têm parte na luz. Portanto, todos os que seguem o diabo e o mundo não têm parte com aqueles que são chamados por Deus para fora do mundo. Todos os que se encontram no mal não têm parte no bem.

Por isso, é e deve ser assim: Quem não foi chamado por Deus a uma só fé, um só batismo, um só Espírito, um só corpo, com todos os filhos da igreja de Deus, não pode ser feito um só pão com eles. E deve ser feito em verdade, se a pessoa deseja realmente repartir o pão de acordo com o mandamento de Cristo. [55]

Artigo IV. Estamos de acordo sobre a separação efetiva

Estamos de acordo sobre a separação efetiva do mal e da maldade que o diabo plantou no mundo, assim simplesmente; não devemos ter nenhum companheirismo com eles, [56] e não colaborar com eles na confusão de suas abominações. Ou seja: uma vez que todos aqueles que não entraram na obediência da fé, nem se uniram a Deus para fazer Sua vontade são uma grande abominação diante de Deus, então nada pode realmente crescer ou vir deles a não ser coisas abomináveis. Agora não há nada no mundo e em toda a criação além de bem ou mal, crentes e descrentes, escuridão e luz, o mundo e os que estão [saíram] fora do mundo, o templo de Deus e templos de ídolos. Cristo e Belial, e nenhum terá parte com o outro.

A nós, então, o mandamento do Senhor é também óbvio, por meio dele Ele nos ordena ser e nos tornar separados do mal, e assim Ele será nosso Deus e nós seremos seus filhos e filhas.[57]

Mais adiante, Ele nos previne sair da Babilônia e do Egito terrestre, para que não sejamos partícipes no tormento e sofrimento que Deus trará sobre eles.[58]

A partir disso, devemos aprender que tudo o que não está unido [59] com nosso Deus em Cristo não pode ser outra coisa senão uma abominação que devemos evitar.[60] Por abominação se entende toda idolatria [62] e serviços eclesiais católicos e protestantes [61], reuniões e frequência à igreja, [63] chás nas casas, juramentos e compromissos de incrédulos, [64] e outras coisas desse tipo, que embora altamente respeitadas por todo mundo, são carnais ou praticadas em evidente contradição com o mandamento de Deus, e de acordo com toda a injustiça que está no mundo. De todas essas coisas devemos estar separados e não ter parte com elas, pois elas não são outra coisa senão abominação, e elas são a causa de sermos odiados como antes o foi Jesus Cristo, que nos libertou da escravidão da carne e proveu-nos para o serviço de Deus através do Espírito que Ele nos deu.

Assim também devemos [65] abolir de nosso meio [66] as diabólicas armas da violência – como a espada, armaduras e similares, e todo uso delas para proteger amigos ou contra inimigos – em virtude da palavra de Cristo: "você não resistirá ao mal".[67]

Artigo V. Quanto aos pastores na igreja de Deus, concordamos o seguinte:

Quanto aos pastores na igreja de Deus, concordamos o seguinte: O pastor na igreja será uma pessoa de acordo com a regra de Paulo, [68] plena e completamente, que tenha um bom discernimento com relação aos que estão fora da fé. Essa função inclui ler, admoestar, ensinar, advertir, disciplinar, banir da Igreja, e corretamente dirigir os irmãos e irmãs em oração, e no partir do pão, [69] e em todas as coisas cuidar do corpo de Cristo, para que cresça e se desenvolva para que possamos louvar e honrar o nome de Deus, e calar a boca do caluniador.

Ele será apoiado, no que ele precisar, pela congregação que o escolheu, de forma que aquele que serve o Evangelho viva do Evangelho como o Senhor ordenou. (1 Cor. 9:14). [70] Mas, se um pastor fizer algo merecedor de reprimenda, nada será feito contra ele sem o depoimento de duas ou três testemunhas. Se eles pecarem serão repreendidos publicamente, de forma que outros possam temer.[71]

Mas se o pastor tiver que ser afastado ou conduzido ao Senhor pela cruz [72] na mesma hora outro deve ser nomeado [73] para o lugar dele, de forma que o pequeno povo e o pequeno rebanho de Deus não possa ser destruído, mas seja preservado pelas advertências e seja consolado.

Artigo VI. Concordamos com o seguinte sobre a espada:

Concordamos com o seguinte sobre a espada: A espada é uma ordenação de Deus fora da perfeição de Cristo. Ela pune e mata os maus e guarda e protege o bem. A lei da espada foi estabelecida [74] contra os ímpios para punição e morte, e os governantes seculares foram estabelecidos para usá-la.

Mas, dentro da perfeição de Cristo, apenas o banimento é utilizado, para a advertência e exclusão de quem pecou, sem a morte da carne, [75] é simplesmente aviso e mandamento para não mais pecar.

Agora, muitos, que não entendem a vontade de Cristo para nós, vão perguntar se um cristão pode ou não usar a espada contra os ímpios para a proteção e defesa do bem, ou por causa do amor.

Nossa resposta unânime é: Cristo nos ensina e nos ordena a aprender com ele, pois Ele é manso e humilde de coração e assim acharemos descanso para nossas almas. [76] Agora, Cristo diz, com relação à mulher que foi apanhada em adultério, [77], que ela não deveria ser apedrejada segundo a lei de Seu Pai (e sobre isso diz: "O que o Pai me ordenou, eu faço") [78], mas, com misericórdia e perdão, advertiu-a para não mais pecar, dizendo: "Vai, não peques mais". Exatamente assim também devemos proceder, de acordo com a regra do banimento.

Segunda questão relativa à espada: se um cristão deve participar de disputas e contendas em assuntos mundanos como os incrédulos fazem entre si. A resposta: Cristo evitou decidir ou emitir julgamento entre irmão e irmão sobre herança, se recusou a fazê-lo. [79] Então, devemos também fazer assim.

Terceira questão relativa à espada: se o cristão poderia ser um magistrado caso fosse indicado. Essa pergunta é respondida assim: Cristo seria feito Rei, mas Ele evitou e não discerniu [isso] na ordem do Seu Pai [80]. Assim também devemos fazer como Ele fez e segui-lo, assim não andaremos nas trevas. Pois ele mesmo diz: "Quem quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me". [81] Ele mesmo ainda proíbe a violência da espada, quando diz: "Os príncipes deste mundo têm poder sobre elas, etc, mas entre vocês não será assim." [82] Além disso, Paulo diz: "A quem Deus pré-conheceu, ele tem também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho", etc [83] Pedro também diz: "Cristo sofreu (não governou), deixando-lhes exemplo para que sigam seus passos". [84]

Enfim pode-se ver nos seguintes pontos que não convem a um cristão ser um magistrado: a regra do governo é segundo a carne, a dos cristãos segundo o espírito. As casas onde moram permanecem neste mundo, a dos cristãos está no céu. A cidadania deles está neste mundo, a dos cristãos está no céu. [85] As armas de batalha deles são carnais, e somente contra a carne, mas as armas dos cristãos são espirituais, contra a fortificação do diabo. O mundano está armado com aço e ferro, mas os cristãos estão armados com a armadura de Deus, com a verdade, justiça, paz, fé, salvação e com a Palavra de Deus. Em suma: Cristo é a nossa cabeça, e os membros do corpo de Corpo de Cristo devem ser conduzidos por Ele, para que não haja divisão no corpo pela qual seria destruído. [86] Desde então, Cristo é o que Dele está escrito. Assim, devem Seus membros também ser, de modo que seu corpo possa permanecer inteiro e unificado para seu próprio avanço e edificação. Pois todo reino dividido contra si mesmo será destruído. [87]

Artigo VII. Concordamos o seguinte sobre juramento:

Concordamos o seguinte sobre juramento: O juramento é um compromisso entre aqueles que estão disputando ou fazendo promessas. Na Lei é ordenado que seja feito em nome de Deus, verdadeiramente, não falsamente. Cristo, que ensina a perfeição da lei, proíbe a Seus [discípulos] todo juramento sobre algo ser verdadeiro ou falso; nem pelo céu, nem pela terra, nem por Jerusalém, nem pela nossa cabeça; e Ele explica a razão, "porque vocês não podem tornar um cabelo branco ou preto". Como vêem, todo juramento é proibido: não podemos executar o que prometemos ou juramos, pois não podemos mudar a menor parte de nós mesmos. [88]

Agora há alguns que não dão crédito ao mandamento simples de Deus, e dizem: "Mas o próprio Deus fez promessas a Abraão, porque Ele era Deus (prometeu estar com ele, prometeu ser o Deus dele caso guardasse Seus mandamentos). Por que então eu não deveria também prometer algo a alguém?" Resposta: Ouça o que diz a Escritura: "Deus, pois, queria mostrar mais abundantemente aos herdeiros a imutabilidade de sua promessa, inserindo uma promessa. (Por ser impossível a Deus mentir), poderemos ter uma forte consolação". [89] Observe o significado desta passagem: Deus tem o poder de fazer o que Ele proíbe para nós, pois tudo é possível para Ele. Deus fez uma promessa a Abraão, diz a Escritura, para mostrar que Seu conselho é imutável. Ou seja, ninguém pode resistir, nem impedir seus desígnios. Mas nós não podemos, como Cristo disse acima, cumprir ou executar nossos juramentos, portanto, não devemos prometer nada.

Outros dizem que o juramento não pode ser proibido por Deus no Novo Testamento pois foi autorizado no Velho, apenas foi proibido jurar pelo céu, pela terra, por Jerusalém, e por nossa cabeça. Resposta: Ouvi a Escritura: Aquele que jura pelo céu jura pelo trono de Deus e por aquele que nele está assentado. [90] Observe: se é proibido jurar pelo céu, que é apenas o trono de Deus: quanto mais pelo próprio Deus! Insensatos e cegos, quem é maior, o trono ou aquele que nele está sentado?

Outros dizem: se é errado usar o nome de Deus para confirmar a verdade, então os apóstolos Pedro e Paulo também juraram [91]Resposta: Pedro e Paulo apenas testemunharam o que Deus prometeu a Abraão, e que nós também temos recebido. Mas quando alguém testemunha, a pessoa faz isso interessada no que está presente, se é bom ou mal. Simão falou de Cristo para Maria e testemunhou: "Eis que este é posto para queda e elevação de muitos em Israel". [92]

Cristo nos ensina de forma semelhante quando diz: [93] "Deixe sua palavra ser sim, sim; não, não, porque tudo o que é mais do que isso provém do mal". Ele diz que seu discurso ou palavra deve ser sim e não, de forma que ninguém poderia entender que Ele tenha permitido isto. Cristo simplesmente é sim e não, e todos aqueles que O buscam simplesmente entenderão a Palavra dele. Amém. [94]

Os 7 artigos de Schleitheim
Cantão de Schaffhausen, Suíça,
24 de fevereiro de 1527

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Nota explicativa sobre a relação do documento abaixo com a Confissão de Schleitheim:

Para a Compreensão Fraterna, que nas duas gerações passadas veio ser reconhecida amplamente como um marco teológico, nós juntamos outro texto que poderia ter sido na ocasião igualmente significativo. Este conjunto de instruções concernentes à ordem congregacional e ao culto foi divulgado em 17 de abril de 1527, junto com o texto de Schleitheim, aparentemente conjuntamente com o texto de Bern da União Fraterna. Deve ter sido juntado então ao mesmo tempo em abril, dentro das seis semanas do encontro em Schleitheim. Há bases circunstanciais para ser considerado ligado a Schleitheim e Sattler. É o mais antigo texto que se conhece que trata desse assunto, e nunca foi previamente publicado integralmente. --JHY


Ordem Congregacional [99]

Uma vez que o eterno, poderoso e misericordioso Deus fez sua maravilhosa luz brilhar neste mundo e [nesta] época perigosa, nós reconhecemos o mistério da vontade divina, que a Palavra nos seja pregada de acordo com o ordenamento adequado do Senhor [100] por meio da qual fomos chamados para a Sua comunhão. Portanto, de acordo com o mandamento do Senhor e os ensinamentos de Seus apóstolos, no ordenamento cristão, devemos observar o novo mandamento, [101] no amor mútuo, de modo que o amor e a unidade possa ser mantida, o qual todos os irmãos e irmãs de toda a congregação devem concordar em manter:

Os irmãos e irmãs devem se reunir pelo menos três ou quatro vezes por semana, para se exercitar [102] no ensinamento de Cristo e seus apóstolos e cordialmente exortar uns aos outros para permanecerem fiéis ao Senhor, como prometeram.

Quando os irmãos se reunirem, devem trazer algo para ler juntos. [103] Aquele a quem Deus deu melhor compreensão deve explicar, [104], os outros devem prestar atenção e ouvir, de modo que não hajam dois ou três travando uma conversa privada, incomodando os outros. O Saltério deve ser lido diariamente em casa. [105]

Que ninguém seja leviano na igreja de Deus, nem em palavras nem em ações. A boa conduta deve ser mantida por todos e também perante os pagãos. [106]

Quando um irmão vê seu irmão cometer um erro, ele deve adverti-lo de acordo com o mandamento de Cristo [107] e repreendê-lo de uma forma cristã e fraterna, pois todos estão vinculados e obrigados a fazer por amor.

No conjunto dos irmãos e irmãs desta congregação ninguém terá alguma coisa própria, mas, como os cristãos no tempo dos apóstolos terão tudo em comum e, especialmente, armazenados num fundo comum do qual pode-se ajudar os pobres, de acordo com a necessidade de cada um, [108] e, como no tempo apóstolos, não permitir que nenhum irmão passe necessidade.

Toda glutonaria deve ser evitada entre os irmãos que estão reunidos na congregação; sirva uma sopa ou um mínimo de vegetais e carne, pois comer e beber não é o reino dos céus. [109]

A Ceia do Senhor deve ser realizada sempre que os irmãos se reunirem, [110], anunciando a morte do Senhor, e assim instando cada um a relembrar como Cristo deu a Sua vida por nós e derramou seu sangue por nós, para que possamos também estar dispostos a dar o nosso corpo e nossa vida por amor de Cristo, o que significa pelo bem de todos os irmãos.

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Conclusão (Bênção)

Queridos Irmãos e Irmãs no Senhor: estes são os artigos que alguns irmãos previamente entenderam de modo errado, diferente do verdadeiro significado. Assim muitas consciências fracas ficaram confusas, pelo fato do nome de Deus ter sido caluniado foi necessário chegarmos a um acordo [95] no Senhor. A Deus seja dado o louvor e a glória!

Agora que você compreendeu plenamente a vontade de Deus revelada por nós neste momento, você deve realizá-la com convicção, persistência e fidelidade. Para que você saiba bem qual a recompensa do servo que conscientemente peca.

Tudo que você fez inadvertidamente e que agora confessa ter agido injustamente está perdoado. Nessa reunião com fé suplicamos, por causa de todas nossas faltas e culpas, pelo gracioso perdão de Deus, em nome de Jesus Cristo. Amém.

Afaste-se de tudo que não se enquadre na simplicidade da verdade divina que foi declarada por nós nesta carta em nossa reunião, de forma que todos possamos ser governados pela regra da proibição, para que daqui em diante a entrada de falsos irmãos e irmãs entre nós possa ser prevenida.

Afastem-se de tudo que é mau, e o Senhor será seu Deus, e vocês serão Seus filhos e filhas. [96]

Queridos irmãos, lembrem-se do aviso que Paulo deu a Tito: [97] "A graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens. Ela nos ensina a renunciar à impiedade e às paixões mundanas e a viver de maneira sensata, justa e piedosa nessa era presente, enquanto aguardamos a bendita esperança: a gloriosa manifestação de nosso grande Deus e Salvador, Jesus Cristo. Ele se entregou por nós a fim de nos remir de toda a maldade e purificar para si mesmo um povo particularmente seu, dedicado à prática de boas obras". Pensem nisto, e coloquem isso em prática, e o Deus de paz estará com vocês.

Que o nome de Deus seja sempre e grandemente bendito e louvado, Amém. Que Deus possa lhe dar-lhe Sua paz, Amém.

Schleitheim, dia de São Mateus, [98] 1527.

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Introdução de John Howard Yoder, em
The Legacy of Michael Sattler, Classics of the Radical Reformation, Vol. 1, Herald Press, 1973


No começo de 1527 o movimento dos Irmãos Suíços corria sério perigo de desintegração. A repressão pelos protestantes alcançara pela primeira vez o nível da pena de morte, com a execução de Felix Mantz em Zürich, em 5 de janeiro. No Leste da Suiça, onde o movimento alcançara uma onda inicial de sucesso popular, foi duramente esmagado cidade de St. Gall, mas as autoridades continuaram tendo dificuldade na zona rural circunvizinha, especialmente no cantão de Appenzell onde a combinação de pressão governamental, liderança inadequada, e o fermento socioeconômico daquele tempo conduziu enormemente para a desordem que Conrad Grebel provavelmente estava tentando controlar quando morreu doente no verão de 1526. Strasbourg era o lugar onde havia maior probabilidade de abertura para um entendimento, ou pelo menos a possibilidade de alcançar um contínuo diálogo entre os anabatistas e a Reforma oficial; mas esta possibilidade teve que ser abandonada após a visita de Sattler a Strasbourg. [1]

Strasbourg foi a melhor e também a última chance para estabelecer um acordo sério com os "líderes" do Movimento da Reforma. Entre os principais reformadores, Martin Bucer foi o mais dotado de espírito ecumênico e pastoral, Capito era mais aberto a idéias radicais, e o governo de Strasbourg era mais cauteloso e tolerante. Quando as conversações se romperam lá, quase dois anos depois da primeira fratura em Zürich, ficou definitivamente claro que o anabatismo teria que seguir em frente sozinho, não apenas nos territórios que permaneceram estritamente católicos, mas em todos os lugares.

Isto marca o fim do investimento de Sattler nas "relações intereclesiásticas". Ele abandonou o esforço para convencer os líderes reformadores; ao mesmo tempo em que abandonou a possibilidade de estender seu movimento nos territórios protestantes onde seria um tanto mais fácil (devido à corrente simpatia pelas suas preocupações) e mais seguro (devido à perseguição ligeiramente mais moderada). Dali em diante ele atuaria nas cidades menores da Floresta Negra. Parte desta área era controlada pela soberania austríaca (ou seja, fielmente católica), sob a administração de Statthalter de Ensisheim da Austria, e sob o controle dos aliados e vassalos da Áustria, como Count Joachim von Zollern de Hohenberg, que veio a ser o juiz de Sattler.

Esta área de zona rural católica, sem cidades proeminentes entre Ulm e Freiburg ou entre Tübingen e Schaffhausen, poderia ser qualificada como o polo crescente do movimento dos Irmãos Suíços. No triângulo Schaffhausen/Waldshut/Zürich cujo território cruzava com a ala sulista, Sattler e Wilhelm Röubli/Reublin foram os únicos líderes proeminentes nesta primeira fase.

Sattler tinha muita consciência do pouco tempo que dispunha para consolidar o movimento que plantara. Da mesma maneira que o período de outubro a dezembro de 1523 marcou a primeira autoconsciência dos radicais de Zürich e o período de dezembro de 1524 a janeiro de 1525 abriu a primeira violação formal, o início de 1527 deve ser reconhecido como a maturidade de um companheirismo distinto, visível com uma responsabilidade de longo alcance pela sua ordem e pela sua fé.

A pressão do exterior, a confusão no interior, a falta de influência diretiva (que nunca era especialmente clara ou determinante) dos fundadores de Zürich, e a crescente percepção de que em vez de aceitar uma visão de renovação difusa o jovem movimento teria que aceitar uma continua separação combinada com uma identidade sofredora, para possibilitar a afluência de todo movimento para fora do solo.

Foi esta necessidade que gerou o encontro de Schleitheim. Nada sabemos sobre como a reunião foi convocada, sobre o que precisamente fez com que ela fosse realizada naquele momento, ou quem participou. A tradição aponta Michael Sattler como a liderança espiritual na reunião, e o autor do documento reproduzido acima, tão difundido quanto confiável, [2] embora nenhuma das primeiras tradições tenha emitido relatos de testemunhas oculares. Esta tradição é confirmada por paralelos óbvios entre o pensamento e fraseado de Schleitheim e outros documentos definitivamente reconhecidos como escritos por Sattler.

Os Sete Artigos que são o coração do texto, foram presumivelmente discutidos, reescritos, e aprovados no curso da reunião. Aqui a contribuição de Sattler pode ter sido alguma elaboração antes da reunião. Os Sete Artigos são encaixados em uma carta escrita na primeira pessoa, depois da reunião, que presumivelmente saiu completamente da caneta de Sattler.

Os pesquisadores durante algum tempo divergiram sobre qual seria o foco primário desta reunião. Jan Kiwiet expressou o forte argumento de que o foco polêmico primário estava relacionado às ameaças ao movimento anabatista, representadas pelas mentes de homens como Hans Denck na Alemanha, com sua crítica à rigorosa disciplina do movimento irmãos suíços. [3] A força dessa interpretação não reside nos Sete artigos em si, mas na carta de apresentação, e no espírito de alguns dos outros escritos dessa coleção [4].

Outra interpretação começa com a observação de que, diferindo de um credo ou catecismo equilibrado, Schleitheim destaca pontos onde os irmãos diferiam do resto do Protestantismo. Foi, assim, um manual do homem comum de distintos anabatistas. Esta interpretação é fundamentada pelo conteúdo dos próprios Sete Artigos, que circulou freqüentemente sem a carta de apresentação. Este foi o modo como este texto foi compreendido pelos Reformadores [5] e é apoiado hoje por Beatrice Jenny. [6]

O presente editor não vê nenhuma real necessidade de escolher entre as duas interpretações. Se houvesse pessoas competindo pela liderança dentro do jovem movimento anabatista, a direção mais óbvia que seguiriam, em conflito com a orientação fixada pelos iniciantes de Zürich e por Michael Sattler, tenderia para uma espiritualização das distintas congregações anabatistas visíveis, com o efeito de maior subserviência, pelo menos superficialmente, para com as autoridades da igreja estatal, e maior conformidade para os padrões de comportamento que eles requeriam. Os documentos posteriores nesta coleção confirmam que o traço do "falso profeta" e do "mal-feitor" é a participação em encontros que justificam a igreja estatal. [7] Até mesmo a antinomiana "liberdade carnal" dos que defendiam que a pessoa que está em Cristo pode fazer qualquer coisa sem dano [8] para sua fé, pode ser aplicada a argumentos em conformidade com a igreja estatal, sobre externalidades como embriaguez ou relações sociais desordenadas. A idéia de que sendo crente a pessoa pode fazer qualquer coisa sem nenhum dano para sua fé não foi uma invenção peculiar e licenciosa de algum anabatista marginal; foi (pelo menos de acordo com a interpretação da mente popular) mais uma das elaborações da pregação luterana se adequando aos desejos dos ouvintes. [9]

Não há nenhuma razão para decidir por um dos dois argumentos acima. [10] A evidência clara que distingue o movimento dos Irmãos Suíços das igrejas protestantes e católicas foi a sólida defesa contra a confusão e propósitos dúbios nas fileiras das irmandades que começavam a tomar forma como um movimento autônomo.

A importancia estratégica da realização de Schleitheim é bem demonstrada pela circulação rápida e ampla de seu texto. Zwinglio recebeu sua primeira cópia em abril pelas mãos de Johannes Oekolampad em abril, o qual, por sua vez, a recebera de Johannes Grell, um pastor do interior perto de Basel. Logo ele recebeu outra cópia de Berchtold Haller em Berna. Esta cópia fora obtida pela polícia de Berna no curso de uma investigação nas casas, na trilha de um esforço de quatro anabatistas para conversar com Haller. Haller chamou-a de "seus objetivos e razões". Zwinglio respondeu imediatamente com uma refutação. [11] até Zwinglio escrever seu Elenchus pelo verão daquele ano, ele já tinha em mãos quatro cópias diferentes que chegaram a ele de muitas fontes diferentes. Inspecionamos acima [l2] o número de reimpressões e traduções com a União Fraterna, juntamente com alguns dos outros materiais seguintes, comparando-os a estes panfletos foi o texto de Schleitheim que apareceu primeiro e que deu seu nome à página que titula a coleção inteira.

De acordo com Zwinglio, "não há quase ninguém entre vocês que não tenha uma cópia de seus mandamentos tão bem fundamenados". [13] Calvino descreve o esboço como "sete artigos aos quais todos anabatistas aderem em comum. . . o qual eles asseguram ser uma revelação que desceu do céu". [14] A autoridade que veio ser designada aos Sete Artigos dentro do movimento anabatista é demonstrada por um lado pela aceitação quase universal das posições que representa, visíveis até mesmo na repetição de frases e argumentos em documentos posteriores. Isso é especialmente verdadeiro com relação aos artigos VI e VII, sobre a espada e o juramento, e resulta em um número relativamente grande de uniformidade de posições anabatistas sobre estas questões dali em diante. [15] Algum tempo mais tarde, em 1557, na conferencia de Strasbourg, vemos a importancia da reunião sendo destacada referindo-se a um homem em cuja casa o acordo foi tirado. [16] O texto de Schleitheiltl também pode ser citado explicitamente. [17]

A base textual da presente tradução desenvolvida pelo Dr. Heinold Fast em sua edição de Täuferakten para a Suíça oriental, graciosamente nos foi passada antes de publicação. O esforço de submeter o texto original a uma conjetura crítica deve funcionar com quatro fontes: (a) o Elenchus de Zwinglio dentro do qual o texto é integralmente traduzido em latim com base nas quatro copias que Zwinglio tinha em mãos. Esta foi a base para as primeiras traduções em inglês. [18] (b) O manuscrito preservado no Berner Staatsarchiv, [19] reproduzido uma vez parcialmente por Ernst Mueller, der de Geschichte Bernischen, Fraueneld, 1895, Taufer, 38 ff., e mais completamente mas ainda não com precisão completa (cf. Fast), por Beatrice Jenny, Bekenntnis. Há boas razões para acreditar que este foi um dos quatro textos que Zwinglio teve acesso, mas nem sempre coincide com a tradução latina dele e alguns vezes a outra leitura refletida nas traduções dele parece preferível. (c) A primeira impressão reproduzida por Bohmer em 1912. [20] (d) A primeira impressão reproduzida por Kohler em 1908. [21]

As duas primeiras impressões são bem parecidas. Elas foram a base para todas as impressões posteriores, para as traduções no francês e holandês, e para as cópias manuscritas preservadas pelos Irmãos Hutteritas e depois reimpressas por Wolkan, [22] Beck, [23] e Lydia Miiller. [24] A reimpressão de Kohler é a base da tradução inglesa extensamente usada por J. C. Wenger. [25]

Desde seu reconhecimento pelo historiador holandês, Cramer, talvez a primeira testemunha moderna a reconhecer o profundo significado de Schleitheim, comentários do texto e de sua importância passaram a ser frequentes. [26] Vários resumos da história do texto estão disponíveis. [27] Traduções modernas estão sendo desenvolvidas em inglês [28] e francês [29] e Heinold Fast publicou uma versão alemã moderna como também uma reedição do original. [3O]

Ao Entendimento Fraternal que nas duas gerações passadas vem sendo amplamente reconhecido como um marco teológico, nós juntamos outro texto que, na ocasião, pode ter sido igualmente significante. Este documento que fixa instruções relativas à ordem congregacional e à adoração estava circulando em 17 de abril de 1527, junto com o texto de Schleitheim, aparentemente na mesmo calhamaço do texto de Bern da União Fraterna. Portanto, deve ter sido juntado aos demais, na mesma época, em abril, no prazo de seis semanas do encontro Schleitheim. Há provas circunstanciais para ser considerado no contexto de Schleitheim e de Sattler. É o texto conhecido mais antigo sobre esse assunto, e ainda não publicado por completo.


Extraído de John Howard Yoder, Introduction to "The Schleitheim Brotherly Union," (Chapter 2), The Legacy of Michael Sattler, Herald Press, 1973, pp. 27-34.

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Ponto de vista de Jan Gleysteen

Schleitheim

No caminho da famosa Floresta Negra da Alemanha para a espetacular Catarata do Reno na Schaffhausen Suíça há um despretencioso vilarejo chamado Schleitheim. A maioria dos viajantes passam apressadamente por esse caminho preocupada com as grandes cenas à frente.

Para nós, a cidade e o nome de Schleitheim detem um maior interesse, pois foi aqui que, em fevereiro 1527 que ocorreu uma importante reunião dos anabatistas suíços e alemães. De acordo com tradição Michael Sattler pediu e presidiu a reunião. O jovem movimento anabatista corria o perigo de desintegrar-se sob a pressão da violenta perseguição de fora e da nítida diferença de opiniões de dentro.

No curso da assembléia as várias facções chegaram a um acordo e publicaram suas visões em um folheto chamado A União Fraternal (ou Acordo), uma confissão de fé.

Com este documento o livre e espiritual movimento dos Irmãos Suiços foi moldado em um ordeiro e bem organizado movimento. Se esta reunião não tivesse acontecido naquela época o movimento anabatista poderia ter morrido bem como a visão de seus líderes. Agora, os anabatistas tem uma plataforma para resistir à perseguição sangrenta das nações cristãs, à calúnia bem escrita de seus oponentes do clero e do estado, e ao desvio de fanáticos tentando usar o movimento para seus próprios fins.

Texto extraído e traduzido de Purpose, February 6, 1977, pp. 4-5.
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Notas de Rodapé


1. JF Gerhard Goeters, (Ludwig Hatzer, espiritualista e Antitrinitariano, 1957, p. 94), defende a hipótese de que, quando esteve em Estrasburgo, Sattler ainda tinha alguma esperança de trabalhar junto com Bucer e Capito, ou seja, de conquistá-los e conduzir o movimento de reforma in loco em direção ao Anabatismo. Goeters sublinha que os vinte artigos de Estrasburgo diferem dos sete artigos de Schleitheim, principalmente porque os de Estrasburgo não reconhecem a necessidade de um gabinete pastoral, enquanto Schleitheim reconhece. Isso sugere que até o início de 1527 ainda havia esperança de acordo com os reformadores.

2. O testemunho mais antigo que explicita essa tradição está em um documento de Leopold Scharnschlager que cita o artigo VI sobre o governo (ARG, 1956, p. 212). Ver também H. Stricker, MGB, 21, 1964, p. 15.

3. Ian Kiwiet, Pilgram Marpeck, Kassel, 1957, pp. 43FF.; Cf. também Huntston George Williams, The Radical Reformation, Filadélfia, 1962, p.182, cf. abaixo p. 48, nota 33.

4. Veja abaixo pp. 126 e ss.

5. "Em Sete Artigos eles resumiram o que é contrário tanto a nós como aos papistas. . ." Calvin, Brieve Instruction, op. cit., p. 44.

Assim, foi muito adequado a Calvino tomar este texto como esboço de sua própria refutação. Zwinglio igualmente considera os sete artigos um esquema mais adequado para refutação, imediatamente após o recebimento do primeiro manuscrito de Berchtold Haller de Berna, ele respondeu longamente com uma carta, respondendo ponto por ponto, em 28 de abril de 1527 (Z, vol. IX, carta n º 610, p. 108), novamente o uso dos sete artigos em Zwingli's Elenchus testemunha seu caráter representativo. Não pretendemos aqui entrar no mérito destas refutações pelos Reformadores ou das diferenças entre eles, mencionamos aos textos de Zwinglio e Calvino apenas como elementos auxíliares na crítica textual.

6. Beatrice Jenny, Das Schleitheimer Tauferbekenntnis, Thayngen, 1951, p. 39.

7. Veja abaixo especialmente pp. 60, 127 e ss.

8. A ênfase é evidente especialmente nos parágrafos introdutórios da carta de cobertura de Michael Sattler. A referência a uma preocupação semelhante pode ser vista também nas negociações posteriores (abaixo pp. 108 ss). 149.170.172).

9. Zwinglio aponta para o mesmo perigo em seu posicionamento de dezembro de 1524, "Wer gibt Ursache zu Aufruhr" (Z, Ill, pp. 374 ss). A principal fonte de instabilidade social, diz Zwinglio, vem daquelas pessoas que interpretam mal a pregação do evangelho como um afrouxamento da voz das exigências morais. Este tema mais tarde se tornaria uma das discordâncias candentes entre anabatistas e o clero protestante. (cf. Harold Bender, "Walking in the Resurrection", MQR, XXXV, abril de 1961, pp. 96 Se.). A popularidade de ética contextual no protestantismo americano na década de 1960 testemunha que tal posição é completamente impensável nos círculos protestantes.

10. Cf. abaixo nota 39 mais uma referência a este tema.

11. Cf. nota 5.

12. Note above survey of printing, 13 f.

13. Z, VI, pág. 106. O tratado principal dele, Contra Catabaptistarum Strophas Elenchus, "Refutation of the Catabaptists' Knaveries" (1527), foi a palavra final de Zwinglio sobre a questão anabatista, o único escrito latino dele neste assunto. Além dos Sete Artigos refuta também o "confutation booklet", escrito talvez por Conrad Grebel e especificamente dirigido contra o próprio Zwinglio (Yoder, Gesprache, pp. 91 se.). O Elenchus está disponível em tradução inglesa; veja debaixo na nota 28.

O termo catabaptist usado aqui predominantemente por Zwinglio foi pedido emprestado de Oekolampad, mas não pegou, sendo substituído progressivamente por anabatista. O prefixo alemão "wider" pode significar "contra" ou "re"; assim o widertauff do título pode suportar três ou quatro possíveis significados: (a) anti-batismo no sentido de ser praticado em oposição ao batismo infantil tradicional; (b) anti-batismo no sentido de ser uma perversão ou uma paródia do verdadeiro sacramento; (c) re-batismo; (d) poderia significar "imersão" e até mesmo (kata - também"meios" "abaixo" ou "debaixo de"). Assun parece ter sido compreendido por Oekolampad. O uso de Zwinglio de "kata" é pretendido por preservar a força da polivalência no singificado de certas palavras da lingua alemã, com o acento no sentido da perversão (vide b acima). Cf. nota extensa explicativa de Fritz Blanke, Z, que VI, pág. 21, nota I.

14. CR, XXXV, p. 54.

15. James M. Stayer que escreveu sobre essa temática em "The Doctrine of the Sword in the First Decade of Anabaptism", Cornell PhD dissertation 1964, dá grande atenção ao desenvolvimento cronológico, detalhando-o em períodos " antes e depois do impacto de Schleitheim".

Clarence Bauman, Gewaltlosigkeit 1m Tiiufertum, Leiden, 1968, qualifica Schleitheim como "o documento mais importante desde a fundação do anabatismo" (p. 45).

Hans J. Hillerbrand, Die Politische Ethik des Oberdeutschen Tiiufertums, Leiden/Koln 1962, e "The Anabaptist View of the State" (MQR, XXXIL April IQ58, pp. 83 If.), dá pouca atenção ao aspecto do desenvolvimento cronológico e destaca textos posteriores e mais longos.

16. Blaupot ten Cate, Geschiedenis der Doopsgezlnden in Groningen, emz. 1842, L pp. 258 If., and Hulshof, Geschiedenls van de Doopsgezinden te Straatsburg van 1525 tot 1557, Amsterdam, 1905, p. 229. Esta é parte de uma carta que descreve a conferência anabatista principal em Strasbourg em 1557, um dos marcos principais da relação entre os anabatistas do sul da Alemanha e os Menonitas do Países Baixos. A carta foi traduzida para o holandês antes de 1587, e só foi preservado naquela versão.

17. Cf. nota 2 acima.

18. Z, VI, pp. 107-155. Vide tradução abaixo na nota 28.

19. UP SO.

20. The print identified above 13 as A.

21. The print identified above 13 as B.

22. Rudolf Wolkan, Geschichtsbuch der Hutterischen Bruder, Vienna, 1918, p. 42.

23. Josef Beck, Die Geschichtsbucher der Wiedertiiufer. . . ,Vienna, 1883, pp. 41 ff.

24. Lydia Muller, Glaubenszeugntsse Oberdeutscher Taufsgesinnten, Leipzig, 1938, p.37.

25. Primeira impressão em MQR, XIX, No.4, outubro de 1945, pp. 247 ff., and then in Wenger's Doctrines of the Mennonites, Scottdale, 1952; reproduced from Wenger by Harry Emerson Fosdick: Great Voices of the Reformation, New York, 1952; John H. Leith, Creeds of the Churches, Garden City, 1963; and Robert L. Ferm, Readings in the History of Christian Thought, New York, 1964, pp. 528 ff.

26. "Desta forma tão breve, tão clara, tão facil de assimilar, eles prestaram um serviço aos anabatistas de seu tempo e do porvir, pelo qual eles não podem ser suficientemente gratos. Certamente eles fizeram o que fizeram com toda simplicidade de coração, sem idéias de conquista mundial. Eles foram dirigidos por nenhuma outra meta a não ser a responsabilidade para com a igreja deles, de acordo com o que Deus queria para ela. Eles realmente não tiveram nada para ver com ideais elevados; pois eles definiram regras, prescrições e proscrições por meio das quais a igreja presente poderia seguir em frente e continuar o que haviam começado. Assim eles executaram um bom trabalho no interesse de um futuro ao qual eles quase nem imaginavam. Eles trouxeram firmeza e definição no movimento espiritual no qual eles tinham sido colocados. Eles o salvaram do perigo de se tornar uns caos de instabilidade, confusão, e idéias obscuras, de grupos flutuantes, fomentados por dez das mais variadas tendências, principalmente contraditórias, ainda [fossem] na maior parte (nem sempre) pessoas bem-intencionadas. Através de sua formulação desenharam as fronteiras de seu movimento e tornou possível que um companheirismo integrado, uma organização, modesta como era, viesse a existir. Através da criação de tais formas sólidas para o cristianismo original, a irmandade deles, Sattler e os anciões da mesma categoria dele preservaram o movimento da desintegração, o que ajudou nos dias sombrios de perseguição sangrenta, e garantiu-lhe um futuro. Não há uma única característica da 'União Fraternal' que não seja encontrada novamente mais tarde nos Irmãos Menonitas. Dificilmente há uma frase que não se repita". Cramer, Berna, V. 1909, p. 593. A primeira declaração de Cramer sobre o significado do Schleitheim é encontrado em seu artigo Mennoniten em RPTK vol. XII, p. 600.

A nossa própria estimativa da importância da reunião foi primeiramente indicada, independentemente da Cramer, em Gesprache, pp. 98 f.: "Que isso pudesse acontecer, que no decurso de uma reunião homens pudessem mudar suas opiniões e chegar à unidade, não é apenas uma raridade impressionante na história da Reforma, é também o mais importante evento em toda a história do anabatismo. Se não tivesse acontecido, o anabatismo de Grebel, Blaurock, Mantz e Sattler, teria morrido junto com seus fundadores. Mas assumiu uma forma viável e assumiu condições de resistir à licenciosidade dos fanáticos, a coação dos governos cristãos e o poder de persuasão dos pregadores".


Uma conclusão muito semelhante é feita por W. Kohler: "Não menos importante, o significado dos artigos Schleitheim foi a criação de uma ordem para as pequenas comunidades, que, em sua luta contra a igreja estabelecida poderia facilmente desintegrar-se na anarquia e no fanatismo". Flugschrlften, p. 285. Na ocasião da inauguração de um monumento a Sattler em 1957 na igreja da aldeia em Rottenburg, Dean N. van der Zijpp, então decano dos historiadores menonitas europeus, disse: "Sattler, como Menno Simons, não foi fundador, mas sim organizador dos anabatistas. Para ambos foi necessário liderar um movimento espiritual, vivo, fervoroso, profético, efervescente, para o caminho de uma igreja organizada. Para um movimento espiritual, como aquele em Zurique, em 1525-1526, não poderia continuar sendo 'movimento' se não estivesse disposto a enfrentar o perigo para não acabar em um grande mar de fanatismo. Sattler sabia muito claramente: o movimento tinha que ter forma, e ele lutou por uma forma que fixaria limites e ao mesmo tempo preservaria a liberdade. Ele escolheu como slogan 'a esgrima das Escrituras Sagradas', da mesma maneira que Menno Simons enfatizou o valor do texto bíblico, posteriormente. Esse, talvez, também corre perigo. Mas onde está o evangelho de Jesus Cristo estaria perfeitamente seguro entre nós, homens da terra?


"A ação de Sattler, como posteriormente a de Menno Simons, fixou o movimento anabatista em uma pedra sólida, sim, salvou a igreja". (Das Evangelium von Jesus Christus in der Welt:Vortrage und Verhandlungen der Sechsten Mennonitischen Weltkonferenz, Karlsruhe, 1958, p. 340).

27. Friedmann, op clt., "The Schleitheim Confession. . ." p. 82 If. Wenger, op clt., "The Schleitheim Confession of Faith" p, 243 ff. Fritz Blanke, "Beobachtungen zorn Altesten Tiiuferbekenntnis," ARG, XXXVII, 1940, pp, 242 If. ME, Vol. I, p. 447.
Heinrich Bohmer, Urkunden zur Geschichte des Bauemkrieges und der Wiedertaufer, De Gruyter, Berlin, 1933, pp, 25 If.

28. Samuel Macauley Jackson que traduziu o Elenchus de Zwinglio em Selected Works of Huldreich Zwingli (Philadelphia and New York, 1001) pp. 123-258, também traduziu de segunda mão os Sete Artigos em inglês. Jackson desconhecia a existência do original alemão e a importância histórica do documento. Ele apenas recorreu ao texto como "a confissão dos batistas" de Bernese. Esta provavelmente foi a primeira tradução inglesa do texto, desde que Calvino publicou sua "A Short Instruction" em Londres em 1549, incluindo apenas fragmentos do texto de Schleitheim. W. J. McGlothlin estava mais atento que Jackson acerca do significado do original alemão mas ainda desavisado da existência de várias impressões no Século XVI, reproduziu a tradução "Bernese Baptist" conforme Jackson tinha apurado do Elenchus, em sua Baptist Confessions of Faith, Philadelphia, 1911, pp. 3 If., de onde foi tomado por Wm. Lumpkin, Baptist Confessions, 1959, 22 ff.. A tradução por Wenger (veja nota 25) que em muito contribuiu para alertar os pesquisadores americanos sobre o significado de Schleitheim é o única tradução moderna antes da presente reedição.

29. Pierre Widmer and John Yoder, "Princlpes et Doctrines Mennonites," Brussels and Montbeliard, 1955, pp. 49-55.

30. Heinold Fast, Der linke Flugel der Reformation; Klassiker des Protestantismus, Band IV; Sammlung Dietrich, Bremen, 1962, pp. 60 If. Fast preparou também, a reedição definitiva do texto original, mencionada em Band II (Ost-Schweiz) de Quellen zur Geschichte der Taufer in der Schweiz, Zwingli-Verlag, Zürich, editors L.von Muralt and H. Fast.

31. Um conceito significativo no pensamento de Michael Sattler é o do Vereinigung, que, de acordo com o contexto, ser pode ser traduzido de muitas maneiras diferentes, no título o que significa "União", aqui na saudação pode ser traduzido mais naturalmente por "reconciliação" ou "expiação", mais tarde, no texto, na forma passiva do particípio, significa "ser conduzido à unidade". Assim, a mesma palavra pode ser utilizada para a conciliação na obra de Jesus Cristo, para o procedimento pelo qual os irmãos chegam a um pensamento comum, para o estado de concordância em que se encontram, e para o documento que determina o acordo a que chegaram. H. Fast sugere que aqui, em conexão com "o sangue de Cristo", o significado pode ser "comunhão"; conforme 1 Cor, 10:16.

32. Ou, literalmente, "ordenado"; a proposição de J. C, Wenger, "se espalhou por todos os lugares conforme ordenado por Deus, nosso Pai" é uma boa paráfrase se "ordenado" puder ser entendido sem conotação sacramental ou predestinativa.

33. Este termo "estrangeiros" foi interpretado por Cramer Berna, 605, nota 1, em um sentido geográfico ou político, referindo-se a não-suíços. Kiwiet, op. CLT., p. 44, concebe o mesmo significado mas vai mais longe dizendo que os anabatistas suíços quebraram a comunhão com os alemães. Mas esse entendimento é impossível por várias razões:

Em 1520 não era tão forte assim o senso de identidade nacional, dividido em claras linhas geográficas; Sattler e Reublin, líderes na reunião, não eram suíços;

Os libertinos a que Schleitheim se referia, embora Denck (ou Bucer) pudessem ser incluídos, eram (se anabatistas) certamente em sua maior parte suiços, ou seja, os entusiastas de St. Gall (H. Fast "Die Sonderstellung Taufer der em St. Gallen e Appenzell, "Zwlngllana XI, 1960, pp. 223ff.), e Ludwig Hatzer.

Este termo tem uma referência bem diferente, é uma alusão a Efésios. 2:12 e 19, comprovando o efeito conciliador do Evangelho em homens anteriormente alienados pela incredulidade.

34. "Dirigir" e "ensinar" têm como objeto "o mesmo", isto é, a "obra de Deus parcialmente iniciada em nós". paráfrase de Wenger, "dirige a mesma e (nos) ensina" é mais suave, mas enfraquece a imagem impressionante da "obra de Deus" no homem que pode ser "parcialmente iniciada", "proclamada", "dirigida" e "ensinada". Há, no entanto, motivo para Bohmer conjecturar que originalmente pode ter sido usada a palavra keren (guiar) ao invés de leren (ensinar).

35. "Langer Randen" e "Hoher Randell, são colinas com vista para Schleitheim e não, como um leitor moderno poderia pensar, uma referência ao fato de Schleitheim ser próxima da fronteira (no mundo político contemporâneo).

O original diz "Schlaten am Randen". Uma meia dúzia de aldeias no sul da Alemanha suportará nomes como Schlat, Schlatt, ou Schlatten. Uma delas, perto de Engen em Baden, também é identificada como "am Randen", e até recentemente alguns acreditavam ser ali o local de origem dos sete artigos. As provas, agora geralmente aceitas, com relação a Schleitheim perto de Schaffhausen, são facilmente encontradas:

JJ Riiger, um cronista de Schaffhausen, escrevendo por volta de 1594, identifica Schleitheim com os sete artigos. No dialeto local, o equivalente a "ei" no modemo alemão é longo como em Schlaten, ao passo que em outras aldeias Schlatten ou Schlat tem um "a" curto; Sendo sujeita a jurisdições sobrepostas e, portanto, difícil para a polícia, com Klettgau e Schleitheim em sua borda, era relativamente segura e acessível para os anabatistas e, assim, mais um ponto de encontro ligando os principais centros na Alemanha, e no sudoeste e nordeste da Suíça. Esta foi a primeira área onde W. Reublin, amigo de Sattler, esteve ativo após sua expulsão do Zurique no início de 1525. Esta situação jurídica continuou ao longo do século; O prof F. Blanke analisa a questão do lugar em Z, VI, pp. 104 f.; também o faz Werner Pletscher, "Wo entstand das Bekenntnis von 1527?" MGB, V, 1940, pp. 20 f.

36. Segundo Bohmer, uma linha de impressão foi deslocada na impressora. O texto parece dizer literalmente, " fomos montados em pontos e artigos". O verbo aqui é novamente "verelnlgt". Na tradução de Wenger, "somos uma só mente permanecendo no Senhor" é a melhor paráfrase, mas sacrifica a construção passiva verbal que é importante para o escritor. "Os pontos e artigos" podem muito bem permanecer no resto da frase, no texto original: "fomos unidos em pontos e artigos" ou "manter-se firme no Senhor nestes pontos e artigos".

37. Começando com os parênteses "(louvor e glória a Deus somente)", as frases de encerramento do presente número não se refere simplesmente a uma determinação comum para ser fiel ao Senhor, mas muito mais especificamente à experiência real em Schleitheim e o sentido de unidade (Verelnlgung) que os membros portaram no decorrer da reunião. "Todos os irmãs sem contradição" é a descrição formal e "completamente em paz" é a definição subjetiva deste senso de orientação do Espírito Santo. Zwinglio considerou a menção "nós viemos juntos" como a prova de culpa, sectarismo e do caráter conspiratório do anabatismo (Elenchus, Z, VI, p. 56).

38. 1 Coríntios. 14:33.

39. Ds. HW Meihuizen respondeu recentemente com grande eficácia a questão: "quem eram os 'falsos irmãos', mencionados nos artigos Schleitheim?" (op. CLT., pp. 200 e ss.). O método de Meihuizen coloca na cena da Reforma anabatistas de todos os matizes, bem como reformadores, especialmente aqueles em Estrasburgo que Sattler havia deixado recentemente. Comparando as posições teológicas conhecidas destes homens com as declarações de Schleitheim, Meihuizen conclui que Schleitheim deve ter sido dirigida contra Denck, Hubmaier, Hut, Hiitzer, Bucer e Capito. É possível concordar com esta descrição das posições em questão, sem ser convencido que a reunião era claramente dirigida contra alguns homens em particular que especificamente não foram convidados. Se há alguém se enquadra aí, este provavelmente seria Hiitzer com quem Sattler estivera há pouco em Strasbourg, e que era o único deles que poderia ser acusado de tendências libertinas. Para o presente propósito, ou seja, a fim de compreender o significado deste documento, basta ser claro a partir da evidência interna (de acordo com Meihuizen):

Que algumas pessoas previamente ligadas a algumas das posições condenados estavam presentes em Schleitheim a fim de serem participantes do evento e de "serem trazidos à unidade", os "falsos" irmãos mencionados na carta secreta não eram apenas os Reformadores do estado-igreja, pelo menos alguns deles estavam dentro do Anabatismo;

Que a ênfase maior nos sete artigos recai sobre os pontos de separação teológica final da reforma: o batismo, a relação entre a proibição e a ceia, a espada, e o juramento. Aqui a lista é tão paralela ao documento a partir de Estrasburgo, que se supõe que Sattler possa ter desenvolvido seu esboço quando ele ainda estava em Estrasburgo;

Que, na justaposição da carta de apresentação e os sete artigos, Sattler afirma uma articulação interna entre as posições dos anabatistas marginais e espiritualistas, que diferia das de Zürich Schleitheim, e dos reformadores evangélicos.

40. H.W. Meihuizen lê a frase "para sua própria condenação" no sentido de que a assembléia Schleitheim tomasse medidas para excomungar os libertinos aos quais o texto se refere. "The Concept of Restitution in the Anabaptism of Northwestern Europe", MQR, vol. XLIV, abril 1970, p. 149. Isso não é possível. O verbo "ergeben" refere-se ao abandono à lascívia libertina, não à ação anabatista. Para que a interpretação de Meihuizen prevaleça deve-se omitir os parênteses presentes no original.

41. "Glieder" (membros) em alemão tem apenas o significado relacionado com a imagem do corpo, o tom de "pertinência" de um grupo, o que torna a frase "os membros de Deus" incomum em português, não está presente no original.

42. Gal. 5:24.

43. O uso da primeira pessoa do singular aqui é a demonstração de que a carta de apresentação foi escrita, provavelmente após a reunião, por um indivíduo.

44. Esta é a conclusão da carta introdutória e do estilo epistolar. A "carta de apresentação" não está no manuscrito de Berna, e os sete artigos provavelmente circularam na maioria das vezes sem ela.

45. Com uma exceção, cada artigo começa com a mesma utilização da palavra "vereinigt" como particípio passivo, a qual nós reproduzimos assim literalmente como uma lembrança do significado de "Vereinigung" para Sattler.

46. Aqui a versão impressa identifica as seguintes passagens das Escrituras (dando apenas o número do capítulo): Mt. 28:19; Mc. 16:6; Atos 2:38, Atos 8:36, Atos 16:31-33; 19:4.

47. Nachwandeln, a andar depois, é a aproximação mais íntima do texto de Schleitheim ao conceito de discipulado (Nachfolge), que mais tarde se tornou especialmente corrente entre os anabatistas.

48. Duas interpretações desta frase são possíveis. "Ser flagrado inadvertidamente" poderia ser uma descrição de cair em pecado, em paralelo com a anterior expressão "de alguma forma escorregar e cair". Isto significa que o pecado é para o discípulo de Cristo, em parte, uma questão de ignorância ou desatenção. Cramer, Berna, p. 607, nota 2, e Jenny, p. 55, busca explicar que todo o pecado é de alguma forma involuntário, isto é, que, no momento da decisão o pecador é enganado e não está plenamente consciente da sua gravidade. Calvin (por alguma razão baseado na tradução francesa) explica essa passagem dizendo que os anabatistas diferenciavam pecados perdoáveis e imperdoáveis, com apenas os inadvertidos sendo motivo da preocupação conciliadora da congregação. Ou a referência pode estar ligada à maneira como a pessoa culpada foi descoberta.

49. A versão impressa insere "ou banido".

5O. Esta referência a Mt. 18 é a única referência na Escritura aos primeiros textos manuscritos. "Regra de Cristo" ou "Comando de Cristo" é uma designação comum para este texto, Cf, J. Yoder: "ligar e desligar". Concern 14, Scottdale, 1967, esp. pp. 15. Se, outras citações das Escrituras identificadas nas notas de rodapé não estão marcadas no texto, a citação abundante da linguagem bíblica sem interesse em indicar a fonte da citação é uma indicação da fluência com que os anabatistas manejavam o vocabulário bíblico e é, provavelmente, provavelmente também é uma indicação de que eles pensavam nesses textos enquanto expressão de uma verdade significante em vez de "textos de prova".

51. Neste ponto, Walter Kohler, o editor da versão impressa, sugere a passagem de Mt. 5:23. Se "a ordenação do espírito" refere-se especificamente a "antes de partir o pão" e significa apontar para um texto da Escritura, esta poderia ser uma provável; ou 1 Coríntios 11 poderia ter sido aludida, mas "ordenação do espírito" não é a maneira usual com que os anabatistas se referem a uma citação da Bíblia, a frase pode significar também um convite a uma atitude pessoal e flexível, guiada pelo Espírito Santo, na ênfase pela reconciliação.

52. Este é o único ponto em que a palavra "vereinigt" não é utilizada no início de um artigo, presumivelmente porque ocorre mais tarde na mesma frase.

53. Vereinigt: aqui a palavra não tem nenhum dos sentidos detalhados acima, mas aponta para outro, para a obra de Deus na constituição da unidade da Igreja Cristã.

54. 1 Coríntios 10:21, alguns textos tem aqui "São Paulo".

55. A maior parte do debate ecumênico sobre a validade dos sacramentos focaliza tanto o status sacramental do oficiante como o entendimento doutrinário do significado dos emblemas. Convém salientar que a compreensão dos anabatistas da comunhão não se refere ao sacramento mas aos participantes. Não é invalidada por um oficiante não autorizado ou por um conceito insuficiente sobre o sacramento, mas pela ausência de uma verdadeira comunhão entre os presentes.

56. Observe a mudança de "mundo" para "eles". "O mundo" não é discutido independente das pessoas que constituem a ordem regenerada.

57. 2 Cor.6: 17.

58. Rev. 18:4. Alguns textos lêem "que o Senhor pretende trazer sobre eles".

59. Vereinigt.

60. A versão impressa acrescenta "e fugir".

61. O prefixo mais amplo pode significar tanto "contra" como "pró" (o moderno wieder). Ambos os significados são obviamente aplicáveis tanto às igrejas da Reforma de Estrasburgo como às das cidades suíças, ambas são anti-papistas (tendo quebrado com a comunhão romana) e pró-papistas (tendo mantido ou reintegrado certas características do catolicismo). As traduções anteriores preferiram registrar como "papista e anti-papista", mas outra leitura traz uma maior agudeza de sentido, e é apoiada pela tradução de Zwinglio. Assim, a alegação de que as novas igrejas protestantes são em alguns pontos cópias do que havia de errado com o catolicismo é já um dado adquirido no início de 1527.

62. Gazendienst. O manuscrito de Berna e as primeiras impressões registram Gottesdienst ("adoração"); mas Zwinglio, que tinha outros manuscritos, traduziu como" idolatria". Uma vez que as duas palavras se referem à freqüência na igreja, "idolatria" é menos redundante. "Idolatria" era uma designação corrente em todo o movimento Zwingliano para com as estátuas e imagens no culto católico.

63. Ktlchgang, que literalmente significa freqüência à igreja, não tem dimensão de congregação para ele, mas refere-se a conformidade com padrões estabelecidos por todos aqueles que, embora talvez simpatizando com os anabatistas, ainda evitavam qualquer censura pública sendo vistos regularmente nos cultos da igreja estado.

64. O manuscrito de Berna registra "Bürgschaft", ou seja, uma garantia de segurança ou apoio a uma promessa, e pertence à esfera econômica e social. Se a "descrença" aqui se refere a uma falta de sinceridade, então as "garantias e compromissos de 'incredulidade' significaria questões como a assinatura de notas e hipotecas e depoimentos em questões de boa fé. Martinho Lutero declarou fortemente que tais garantias, mesmo em boa fé, eram não só imprudentes, como também imorais, uma vez que o fiador se coloca no lugar de Deus". ("Sobre o comércio e usura, 1524, em Works of Martin Luther, Muhlenburg, Filadélfia, 1001, vol. IV, pp. 9 Se. ). Seu argumento é, portanto, muito paralelo ao dos anabatistas sobre o juramento. Uma perspectiva mais provável é que "descrente" é sinônimo de "mundano", uma referência a guildas e clubes sociais. Zwinglio traduz com foedera, "convênios". Bullinger confirma essa interpretação por repreender os anabatistas quanto ao comprimento (Von dem unverschampten frafel..., Pp. Cxxi para cxxviii) pela sua oposição às associações e sociedades (pundtnussen gselschafften und), à concórdia e à amizade (Vertrag fruntschafft unnd) com os incrédulos, e à alegria temporal (Froud zytliche zymliche). O texto impresso mais tarde mudou para Bürgschaft Bürgerschaft (cidadania), que é menor, no lugar do art. IV. Em abril 1527 Zwinglio não tinha certeza do que aquilo significava, mas inclinou-se a "servir como fiador" (Z, IX, p. 112); em agosto, quando ele escreveu o Elenchus ele interpreta isso como "cidadania", talvez referindo-se aos anabatistas pela recusa em cumprir o juramento do cidadão. Mas se Bürgerschaft deve significar a cidadania, os "compromissos da incredulidade" ainda devem significar algum tipo de envolvimento, jurídica, econômico ou social com os infiéis (Z, VI, p. 121). Lc. 16:15, a referência a "abominações" pode ser aludida.

65. A versão impressa acrescenta: "sem dúvida".

66. A versão impressa consta "e anticristão".

67. Mt. 5:39.

68. 1 Tm. 3:7. Os intérpretes não são claros sobre onde repousa o foco do art. V. Seu primeiro impulso é proclamar o pastor como uma pessoa moralmente digna, ou seja, há uma crítica à prática de nomear-se em razão de sua educação ou conexões sociais sem levar em conta sua estatura moral. A tradução de Zwingli move o foco por traduzir "o pastor deve ser um da congregação", ou seja, não alguém de outro lugar. Era do conhecimento de Zwinglio que os anabatistas rejeitavam a nomeação de um ministro de uma paróquia para o conselho de uma cidade distante, e ele deixou tal conhecimento influenciar sua tradução.

69. A versão impressa acrescenta, "para conduzir os irmãos e irmãs em oração, para começar a partir do pão...."

70,1 Coríntios. 9:14.

71. A mudança no número aqui de "pastor" para "se eles pecarem" é explicada pelo fato dessa frase ser uma citação de 1 Tm. 5:20.

72. "Cruz" é já por esta altura um clichê muito claro ou "termo técnico" designativo de martírio.

73. Talvez "instalado" seria menos inclusivo ao mal sacramental. Verordnet não tem nenhum significado sacramental.

74. "Lei" aqui é uma referência específica ao Antigo Testamento. Significativamente o verbo aqui não é verordnet mas apenas geordnet, transmitindo mais um sentido de permanência ou da instituição divina específica. Deve-se notar que em toda essa discussão "espada" refere-se à competência judiciária e policial do Estado, não há nenhuma referência à guerra no art. VI, há uma breve no IV.

75. "Sem a morte da carne" é uma leitura clara do manuscrito mais antigo. Zwinglio, no entanto, entendeu "em direção à entrada para a morte da carne", uma possível alusão a 1 Cor. 5; a diferença no original é apenas entre a e o.

76. Mt. 11:29.

77. In. 8:11.

78. Jn. 8:22.

79. Ltc:. 12:13.

80. Duas interpretações são possíveis para "não discernir a ordem de Seu Pai". Isso pode significar que Jesus não respeita, como sendo uma obrigação para ele, o serviço no estado no ofício de rei, embora a existência do Estado seja uma ordenança divina. O mais provável seria a interpretação que Jesus avaliou a ação das pessoas que queriam fazê-lo rei como não provocada (ordenada) por Seu Pai.

81. Mt. 16:24.


82. Mt. 20:25.


83. Rom. 8:30.


84. 1 Ped. 2:21.


85. Fil. 3:20.


86. Aqui a versão impressa acrescenta Mt. 12:25: "Pois todo reino dividido contra si mesmo será destruído". A referência se solidariza com Cristo como Cabeça ecoa diretamente os pontos 4 e seguintes da carta de Estrasburgo.


87. Mt. 12:25.


88. Mt. 5:34-37.


89. Heb. 6:7 ss.


90. Mt. 5:35.


91. A tradução de Zwinglio contem um argumento aqui: "Se é ruim jurar, ou até mesmo usar o nome do Senhor para confirmar a verdade, então os apóstolos Pedro e Paulo pecaram, porque juraram".


92. Lc. 2:34.


93. A diferença entre o "ensinado" e "diz que" está no original, que resulta do fato de as referências bíblicas estarem sempre no presente: "Cristo diz", Paulo diz", "Pedro diz".


94. Isto conclui o artigo Sete.


95. Vereinigt.


96. A segunda referência a 2 Coríntios. 6: 17.


97. Tit. 2:11-14.


98, 24 de fevereiro.


99. Este documento não tem título, o título escolhido aqui reflete o rótulo dado na (moderna) tabela de conteúdo do volume de materiais de arquivo UP 80 no Arquivo do Estado de Berna. Nenhuma tradução completa para o Inglês foi publicada; o texto foi desenvolvido por Delbert Gratz, Bernese anabaptists, Scottdale, 1953, p. 25, e por Robert Friedmann, MQR, 1955, p. 162. Jean Séguy publicou uma tradução e comentários no Cristo Seul (Jornal dos menonitas franceses) No.1 (p. 13) e N º 2 (p. 5), 1967. O texto parece ser idêntico a cópia dos sete artigos, de modo que pode-se presumir que circularam juntos e foram concebidos simultaneamente. (Cf. p. 32.)

100. Pode significar: "na providência de Deus, a Palavra é pregada para nós", segundo a qual "Ordnung" remete para as obras de Deus em realizar a Reforma e a pregação do evangelho, ou "a Palavra de Deus é pregada de acordo com o padrão divino", com a ênfase no redescobrimento do verdadeiro legado divino na ordem da igreja. O seguinte "segundo a qual" pode, portanto, se referir à pregação ou à ordem correta.


101. In 1. 2:8.

102. "Sich ben": talvez inclua um elemento de aprendizagem mecânica da narrativa do evangelho e do ensino, uma vez que a alfabetização e a posse de Bíblias era rara.

103. "Ler" inclui exposição. "Leituras" foi um dos primeiros nomes dados às reuniões de estudo realizadas em Zurique e St. Gall, antes da fundação das congregações anabatistas.

104. "Aquele a quem Deus deu o melhor entendimento deve explicar isso" pode significar que, para cada passagem em particular, quem entende o seu significado deveria falar. Então, teríamos um retrato de uma reunião com uma liderança assente, sem nenhum papel de controle por parte do "pastor" mencionado no Artigo V. Então, pode-se inferir, como faz Jean Séguy, que este texto testemunha um tempo antes das decisões de Schleitheim, quando congregações funcionavam sem um líder nomeado. É, no entanto, também possível que "aquele a quem Deus deu o melhor entendimento" possa ser um circunlóquio para um líder reconhecido espontaneamente no grupo local.

105. Esta "leitura" pode muito bem ser recitação mecânica. Esta referência ao Saltério é uma das raras referências anabatistas primitivas a exercícios devocionais não-congregacionais. Pode ser mais um traço (veja acima p. 23, nota 19) de uma herança do monasticismo.

106. 1 Tm. 2:8.

107. Mt. 18: IS, cf. nota acima.

108. O fundo comum é visto aqui como uma bolsa especial para necessidades específicas, não como um comunismo total de consumo, tal como foi estabelecido, não muito tempo depois na Morávia. É significativo que o anabatista não-huterita também considerasse seguir o exemplo econômico dos primeiros cristãos de Jerusalém.

109. Rom. 14:17. A suposição de que a congregação que se reúne freqüentemente em torno de uma simples refeição pode estar ligada a sua evasão de clubes sociais e corporações (acima, p. 38, art. IV.

110. A Ceia do Senhor, especificamente identificada como tal, é evidentemente distinta das demais refeições, embora ambas fossem praticadas tão freqüentemente quanto quando os irmãos se encontravam. (Cfr. Art. 1).



Endereço do texto original em alemão: http://www.museum-schleitheim.ch/bekenntnis/artikel1.htm


Em inglês:
http://www.mcusa-archives.org/library/resolutions/schleithiem/sword.html
http://www.cresourcei.org/creedschleitheim.html e
http://www.anabaptists.org/history/schleith.html


(*) Esta tradução está incompleta e longe de ser definitiva, portanto, qualquer contribuição dos leitores no sentido de melhorá-la será muito bem vinda.

FONTE: O Taborita